Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ao longo do ano, os casos de violência doméstica que resultaram em morte foram-se sucedendo. O de ontem, foi um dos ataques mais violentos, resultando na morte de um rapaz de apenas 13 anos. Por muito que nos custe a morte de uma criança, é ainda pior se pensarmos que não foi o primeiro. 

O agressor esfaqueou o rapaz de 13 anos, que era seu enteado, bem como a ex-companheira, tendo-se depois suicidado com a mesma arma. Antes de morrer, provocou ainda uma explosão de gás. O rapaz e o padrasto acabaram por falecer, tendo a mãe e um militar da GNR sofrido ferimentos devido a estilhaços da explosão. Um vizinho relatou que o carro do agressor era ali visto quase diariamente. A situação era conhecida por muitos dos habitantes da aldeia de Casais, em Tomar, até mesmo pela Junta de Freguesia e o homem "tinha já cumprido pena de prisão por homicídio qualificado." Esta família encontrava-se já "sinalizada na sequência de processos de violência doméstica registados em 2022 e 2023." Então, o que falhou? A prisão efetiva do agressor! Apenas isso.

As vítimas, apesar de tudo, acabam muitas vezes por aceder a visitas dos agressores, seja por causa do contato com os filhos, seja até porque ainda têm por estes sentimentos de amor ou de dependência. Não devem ser as vítimas a ser culpabilizadas, como tantas vezes são, a serem estas a ter de sair de casa, a mudar de freguesia ou, até, a sair do país. Tantas vezes, esta falta de proteção e de respeito pela vítima faz com que a mesma regresse para a mesma casa onde vive o agressor, ou que lhe abra a porta de sua casa, cedendo aos seus pedidos.

Em agosto, as imagens de uma câmara de videovigilância circularam por todo o lado. Os gritos da mulher e do seu filho mostraram-nos a realidade de muitas famílias. Não fossem as imagens e este episódio passaria, escondido como tantos outros, com as vítimas a apanhar e a calar! As agressões foram tão violentas que a mulher foi hospitalizada e sujeita a cirurgia de reconstrução facial! Mas pasmem-se, como eu me pasmei: depois de ter "passado de prisão preventiva para pulseira eletrónica em meados de outubro," o homem foi agora libertado, com "a condição de frequentar um curso de prevenção do alcoolismo e de violência doméstica." E isto aconteceu porque a mulher o perdoou. Perdoar é algo privado, algo íntimo, que nada devia influenciar nas decisões judiciais. Ele cometeu, pelo menos, dois crimes graves de agressão, um contra a mulher e outro contra o filho ao fazê-lo assistir às agressões à mãe, mas ficou em liberdade. A vítima, acabou por solicitar "que fosse restabelecido o contacto entre o filho e o pai." E se a mãe não quer proteger aquela criança, então não se encontra bem e deve também ser avaliada. A vítima pode estar a ser pressionada, a sua vida ou a do filho ameaçada, pode ter medo ou não estar a conseguir organizar a sua vida económica sem ajudas, ou pode apenas ser conivente e aí o problema será outro. Podemos apontar aqui muitas causas para este "perdão", que estranhamente vem contradizer aquilo que é visto nas imagens. Mas a justiça apenas devia decidir com factos e não opiniões: perdoar é, digo novamente, algo pessoal. Se o crime de violência doméstica não precisa que a vítima faça queixa, então porque é que, havendo um crime provado, o agressor não é condenado?

A diferença entre os dois casos? Até agora nenhuma. Ele não matou... pois em 2023 o outro também ainda não os tinha morto. Não matou a mulher, mas matou o filho dela, seu enteado. Entendem? Os sinais já lá estavam.

Os dados de 2025 não são animadores. Em apenas seis meses, morreram 13 pessoas vítimas de violência doméstica: entre janeiro e março "registaram-se 7 vítimas (6 mulheres e 1 homem) de homicídio voluntário em contexto de Violência Doméstica," no primeiro trimestre de 2025 e no "segundo trimestre deste ano morreram seis pessoas" (das quais cinco mulheres e um homem). No "terceiro trimestre deste ano, foram registados cinco homicídios em contexto de violência doméstica, elevando para 18 o número de mortos este ano." Os dados estão agora por atualizar. 

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/bombeiro-que-agrediu-mulher-na-madeira-sai-em-liberdade-apos-perdao-da-vitima_n1705704

https://www.dn.pt/sociedade/violncia-domstica-criana-de-13-anos-e-agressor-morrem-numa-exploso-em-tomar

https://www.cig.gov.pt/2025/07/dados-oficiais-relativos-a-violencia-domestica-em-portugal-1o-trimestre-de-2025/

https://www.publico.pt/2025/11/19/sociedade/noticia/violencia-domestica-18-mortes-policias-contabilizam-25327-ocorrencias-valor-alto-ultimos-sete-anos-2155237

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:02



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D