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Caderno Diário

Escrever é algo que me apraz. Ante a minha vontade de criar, muitas vezes me falta tempo. Aqui passo da vontade à prática. Este é um caderno onde escrevo sobre a minha vida pessoal e temas da atualidade que me fazem refletir.

Caderno Diário

Escrever é algo que me apraz. Ante a minha vontade de criar, muitas vezes me falta tempo. Aqui passo da vontade à prática. Este é um caderno onde escrevo sobre a minha vida pessoal e temas da atualidade que me fazem refletir.

As madrugadas

Acordo. A madrugada ainda não deu lugar ao calor que se adivinha mas o meu corpo já não quer estar mais no aconchego dos lençois. Que se lixe. Tenho umas séries para ver, umas coisas para escrever e, se calhar, um café ajudava a começar a manhã. Faço o café, arrumo a loiça que deixei na máquina, ligo a tv. Volto para cima da cama. Tv ligada e o pc preparado para pôr em prática mais um exercício de escrita. É mais fácil escrever de madrugada. Antes dos outros problemas do dia começarem a chegar em rajadas e a deturpar-me as ideias e a vontade.

Ontem o dia não coemçou bem. Andei à procura da marcação para a consulta na Unidade da Dor, que estava marcada desde abril. Pensava que era às 11h. Encontro o papel, no meio de umas outras papeladas perdidas, são 9h43m. "Vou já sair e aproveito para ir beber café", olho para o papel que tenho na mão. A consulta é às 10h. Estou atrasada. Saio de casa e pelo caminho vou mais uma vez pensando que tenho de ter calma, ouvir o que me vai ser dito, respirar e sair dali com calma, "vai ser só mais uma consulta". Minutos depois de entrar no gabinete, já estou a chorar. Perco de vez a calma e "que se lixe" hoje vou pôr tudo cá fora. Afinal, não tenho mais ninguém a quem me queixar! A médica volta a falar da minha postura e eu disparo que assim tenho menos dores, que ela me está a avaliar em dois minutos ali e que nas restantes horas e dias da minha vida sou apenas Eu sozinha a lidar com a dor, com a incapacidade, com o julgamento dos outros. Se é para me julgar também então não vim ali fazer nada. Ela pede autorização para me encaminhar para a psicóloga. Até que enfim, penso. É um direito que eu tenho, já tive consultas mas tive de as pagar do meu bolso. Avançamos mais um pouco hoje. Depois de me ouvir, lá me avalia os pontos de dor e descobre os gatilhos. O toque dela parecem facas a perfurar-me a carne, uma facada de cada vez. Torço-me e as lágrimas caem em silêncio. Tento responder quando me faz perguntas mas as palavras estão turvas na minha mente. A dor ultrapassa já a vontade de falar. Só quero que ela me deixe sair dali.

Lá resolve fazer uma eco para me ver o ombro - surpresa, há ali qualquer coisa algures na acromioclavicular - informo que já sabia, que já esteve pior do que está agora. Já passaram alguns anos desde que fiz fisioterapia. Agora as dores estão piores porque me torceram o braço esta semana, tento explicar. Saio da consulta com mais uns comprimidos para tomar à noite que "ajudarão nas dores e a descansar", com indicação para não desistir da hidroginástica, para aguardar a chamada para o rx e para ir pedir à médica de família que me passe fisioterapia. Voltamos ao jogo do empurra e das burocracias. Pior se quero um relatório: iam ser duas páginas a explicar o processo e acho que quase será mais fácil ir doutorar-me em medicina primeiro - deve ser mais rápido.

Depois do almoço vou trabalhar. Enquanto estou sentada a preencher a folha de ponto, um dos meninos chega por trás de mim. Agarra-me a cabeça e o pescoço entre os seus braços e sufoca-me, aperta-me. Tento manter a calma, enquanto a minha colega tenta que ele afrouxe o aperto. Os outros miúdos aproximam-se e tentam ajudar. Acho que tanta gente de volta dele só o faz apertar mais. Sei que só passaram uns segundos. Estou bem. Não, não estou bem. As dores disparam e o ombro, o braço, o pescoço parecem a escaldar. Foi o gatilho mais do que a força que ele colocou no aperto. Não entendi e enquanto tento voltar a respirar, chamam-no e levam-no para os pais que entretanto o vieram buscar. Hoje vão sair daqui sem saber o que ele me fez. Não tenho forças para lhes ir contar e a minha colega que o vai entregar não teve tempo de saber o que se passou. Ele não tem culpa. Eu tenho culpa de ter baixado a guarda e estar distraída a preencher um papel. Nem me apercebi da presença dele atrás de mim, ou se o vi, não o senti como uma ameaça. Ele não é ameaçador. Eu não tenho medo dele. Mas sentir-me agarrada e apertada faz despoletar em mim uma sensação de pânico. Passaram-se sete anos e ainda sinto que me estão a agarrar. Por momentos, aquela criança passou de ser apenas um rapaz, autista, para ser aquele outro que me agrediu naquela tarde e que nunca vou esquecer.

Tenho de respirar. O dia continua. As pessoas à minha volta continuam nas suas rotinas e não sabem o que se passou. Respondo sem pensar a algo que me perguntam e acusam-me de estar a "fazer aquele olhar", a "responder torto"... nem me lembro o que me perguntaram, não sei que olhar é que fiz. Por momentos, só me apetece sair dali. Deixem-me ir para casa por favor, é só o que estou a pensar naquele momento.

A tarde passa, aos poucos as coisas vão voltando ao normal. Saio do trabalho. Tenho várias coisas ainda para fazer e o meu filho lembra-me que tinhamos combinado ir ao Batuque. Quero ir. Deixei de ir porque tinha de recuperar. Já entendi que nunca vou estar completamente bem, então... que se lixe! Se amanhã não me mexer será porque estive a fazer algo prazeroso e não a chorar enroscada num canto. A dor esteve sempre ali, presente, como um ferro a escaldar encostado no ombro ou uma faca que de vez em quando me penetrada no braço, mas assim que a música arrancou eu fazia parte daquela bateria. Deixei-me ir, sem pensar num enredo que nunca tocara mas que segui durante mais de uma hora como se tivesse ensaiado dezenas de vezes. Sete anos, desapareceram como se tivesse ensaiado na semana anterior. E o meu filho tentou estar ali, mostrou vontade de aprender, quis saber os nomes dos instrumentos e como se tocam. Diz que vai desfilar e então iremos os dois como fizemos antes. Criar memórias. Um dia ele vai lembrar-se de mim e de como eu e ele desfilavamos. Um dia ele vai saber que estivemos juntos e  que ultrapassei muita coisa. Hoje será igual, posso ter um dia bom ou mau. Posso ter dores ou não. A dor crónica é a malvada que nos destrói sonhos. Mas eu vou pisá-la mais do que ela me vai pisar a mim.

Precipício

O azul do olhar foi-se esfumando, talvez porque já não vês o mar da janela. A janela que te tirámos e que só querias para olhar o horizonte. 

A vida que foi feita de histórias é para mim hoje uma dúvida. Quem foste e como aqui vieste parar, o que fizeste? Não sei quase nada. Tinha 9 anos quando descobri que não tinhamos laços de sangue, mas a partir desse dia jurei que teriamos sempre laços de amor. 

Não sei quanto tempo estarás cá depois de hoje teres feito nove décadas de vida, mas sei que não és mais a mesma pessoa, que não estás aqui como estavas. Percebi que tens revolta, ódio e solidão no olhar, que está cinzento, aguado, sem a vida que aos poucos, se vai esfumando. Que magoas com as palavras aqueles que estão a fazer o melhor que sabem com os meios que têm para te ajudar. Talvez já nem nos queiras ver, que nem queiras ajuda, que queiras apenas ficar com os teus demónios.

Mas isso não permitirei. O precípicio não é o caminho para o mar calmo que desejas alcançar.

Afetações e limitações de circulação

Os casos estão a aumentar muito no Seixal e em Sesimbra. Infelizmente, estas regiões têm sido notícia quase todos os dias, expondo-se as nossas gentes ao olhar inquiridor e maldoso de tanta gente.

Hoje em comunicado do Conselho de Ministros, Seixal e Sesimbra são aplicadas as medidas de Risco muito elevado, o que significa entre outras coisas que voltamos a estar confinados das 23h00m às 05h00m. Todas estas medidas são necessárias, embora me incomodem a mim como incomodam muita gente. A minha vida pessoal não devia estar dependente das medidas anunciadas nas notícias, mas estão. Preciso saber diariamente o que se espera de mim, dos meus comportamentos, para saber até onde posso levar as minhas liberdades. Se saio, se vou, se não vou... 

 

Dia da Mulher

Eu sou mulher e ter um dia que nos é dedicado a nós, faz-me muito orgulhosa. Mas eu nunca fiz nada para merecer este dia. Sou apenas eu, mãe e trabalhadora, que faço o que posso, mas nada de excecional.

Mas na minha vida tive e tenho mulheres excecionais. A minha mãe que já me deixou foi uma delas, uma lutadora até ao fim, sempre de cabeça erguida enfrentava o mundo. A mãe que nos trazia sempre limpas, arranjadas, mas que nos deixava brincar na terra, apanhar caracóis de chinelos e chegar a casa cheias de picos, ou subir às figueiras para roubar figos na Fonte de Carvalho. Que às 07h da manhã nos levava ainda ensonadas para a cozinha da Santa Casa, para ir trabalhar. A mãe que me levava à noite para o carnaval, que me ensinou como "sobreviver" à confusão e a amar aquela festa, desfilando comigo e com a minha irmã nos primeiros anos, na escola de samba "Juventude na Baía". Que me mostrou que podemos mentir mas só no dia das mentiras, que podemos fazer badalos no carnaval e colocar espuma de barbear em todos os carros da rua (incluindo no do meu pai, para os vizinhos não desconfiarem). Ainda me viu entrar para o meu curso, que sempre apoiou, mas já não me viu completar o 1º ano, nem nunca chegou a andar de carro comigo. Na verdade, a minha primeira viagem a conduzir de carta acabadinha de tirar foi de minha casa para o IPO e nas (poucas) semanas seguintes era assim que treinava a condução, no carro do meu pai ou do meu tio, vingando "sozinhas" nas rotundas de Lisboa, na auto estrada - nunca fui medrosa a conduzir.

Dela herdou a minha irmã muitas caraterísticas e por isso a admiro todos os dias mais, por estar sempre, sempre, pronta a ajudar. Mesmo nos piores momentos, levanta-se e parece um furacão enfrentando tudo e todos. Quase telepaticamente, dou-me a pensar em ligar para ela e está o telemóvel a tocar. Independente muito cedo, tal como eu, fez da raiva e da tristeza força, uma força imensa que leva tudo à frente se preciso for. E que me deu as meninas mais lindas do mundo que amo como se fossem minhas tanto como ao meu filho.

E a minha avó, sem a qual nada disto teria sido possível. Pois foi ela que lutou com unhas e dentes por salvar os filhos e a si mesma, dando-lhes uma vida melhor, que enfrentou todos e depois, nos deu a nós tudo. A minha avó esteve sempre lá, a perda da sua menina fez-la sofrer até hoje e deixou marcas muito profundas, mas é aquela avó a quem recorremos quando precisamos de alguma coisa, que nos dá tanto sem "mostrar" que dá. 

A avó onde ficavamos o verão todo para podermos ir para a praia com os nossos primos e os nossos amigos. Que me deixava ler aqueles livros que estavam nas prateleiras e que ainda não eram para a minha idade. E que ensinou a ler, a escrever, a contar, somar multiplicar, dividir. Que me ia todos os dias levar o lanchino ao portão da escola, a casa de quem ia almoçar, lanchar e às vezes ficava também para juntar ou dormir. 

Estas foram as mulheres que mais me influenciaram no meu crescimento. As que tenho em mente sempre que tenho de fazer uma escolha. As que moldaram a minha personalidade.

Ciclone de 1941

Passaram-se 80 anos que a dia 15 de Fevereiro de 1941, o país e em particular a vila de Sesimbra, da qual eu sou oriunda (saudades da minha terra natal) foram fustigados por um ciclone. Desde miúda que oiço falar deste evento, pelos meus avós que me diziam "isto? Isto não é nada! Não queiras saber como foi no ciclone. Tudo destruído." A verdade é que sempre quis saber. Tenho desde já a agradecer justamente, ao Museu Marítimo de Sesimbra, por partilhar este e outros factos da nossa amada vila, fazendo-nos recordar a força da qual os pexitos são feitos.

Este ciclone provocou a morte de quatro pessoas na vila de Sesimbra e a destruição de, aproximadamente, três centenas de embarcações. Os ventos podem ser considerados os mais violentos desde que há recolha de registos meteorológicos (finais do século XIX), tendo rondado os 130 km/hora.

Pode ser uma imagem de 1 pessoa e ao ar livre

A destruição causada pelo ciclone, pode ser vista em algumas das fotos que o próprio museu disponibiliza.
 
Pode ser uma imagem de ao ar livre
 
Nesta foto, podemos ver um grupo de homens (possivelmente todos pescadores, ou quase) a verificar os estragos nas embarcações arremessadas pelo mar e pelo vento contra as casas.
 
A história das gentes de Sesimbra, é um dos temas sobre os quais escrevo (só falta coragem de publicar alguma coisa, talvez um dia).

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