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Porque se discute o 25 de novembro?

por Elsa Filipe, em 25.11.25

Assinala-se hoje o 25 de novembro de 1975. Passaram-se 50 anos, mas se formos perguntar, quase ninguém sabe o que se passou nesta data. Le,mbram-se de quem constituía o "Grupo dos Nove"? E sabiam que estivemos prestes a começar uma guerra civil? Quando falamos dos anos 80 e 90, não nos podemos esquecer que estes governos foram nascendo em cima de um clima de grande instabilidade, de uma democracia recente e de uma República que tinha durado apenas 16 anos e que tinha falhado para dar lugar a um regime militar. 

No passado domingo, saiu à rua a "Marcha dos Audazes", que além de um desfile de onze quilómetros, contou ainda com um almoço convívio, entre militares e ex-militares. Para hoje, 25 de novembro, "está prevista uma sessão solene evocativa na Assembleia da República e uma parada militar no Terreiro do Paço." Em vez de cravos, vão entregar rosas brancas na Assembleia da República. Mas a discussão continua. Com uns a favor e outros contra, este ano a celebração será realizada, com a possibilidade para todos os partidos poderem intervir. "Os comunistas fizeram saber que não vão marcar presença," sublinhando que "não compactua com a operação em curso em torno dos 50 anos do 25 de Novembro para menorizar o 25 de Abril, as suas conquistas e valores, nem para tornar o 25 de Novembro naquilo que não foi, mas que alguns gostavam que tivesse sido". É a opinião deles e lá saberão... talvez não digam é que o que desejavam, na altura, era colocar num poder um outro regime, um outro tipo de ditadura e que esse plano lhes falhou redondamente. Ninguém quer desvalorizar o 25 de abril, mas como seria se o 25 de novembro não tivesse acontecido? Em que tipo de Estado estaríamos hoje?

A sessão solene prevista para as 11 horas, terá "um discurso do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco," e irá terminar "pela alocução do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa."

A 25 de abril de 1974, o país saía finalmente da ditadura e nas ruas celebrava-se a Liberdade! No entanto, um país não muda da noite para o dia e havia que se reorganizar um país que vivia na pobreza, em que os direitos estavam subjugados e que precisav de um novo rumo. A vida não voltaria a ser como antes. Exigiam-se eleições livres, uma nova Constituição, uma Assembleia. E ao contrário da simplicidade com que se trata destes assuntos nos manuais escolares, este não foi um período fácil!

Os apoiantes do MFA (Movimento das Forças Armadas) e o governo, liderado por Vasco Gonçalves, tinham opositores. Apesar do que se conseguiu neste período, não se pode dizer que tenha sido tranquilo, muito pelo contrário.

"Nos meses seguintes o país assistiria a uma série de episódios de violência de grupos mais ou menos organizados da extrema-esquerda e da extrema-direita, e a ameaça de uma guerra civil era real." Houve prisões, perseguições e acusações infundadas, ataques e ameaças de morte. Houve muito, de que agora não se fala, mas uma coisa é certa: o país não podia sair de um regime para cair noutro, igual ou pior e, por isso, o 25 de novembro tem a sua relevância e vem contribuir para colocar um pouco final num período de grande instabilidade. O PREC vê oseu fim no "golpe militar de 25 de novembro de 1975 e, posteriormente, com a Constituição de 1976, dois momentos que põem fim à ilusão de liberdade caraterística desta altura e permitem pôr, finalmente, em prática, os princípios apregoados pela Revolução dos Cravos."

O país vivia em tensão e é a 25 de novembro que "toda esta tensão chega ao limite, com sectores da esquerda radical a tentarem um golpe de estado, que acabou por ser frustrado pelos militares que se encontravam com o “Grupo dos nove”, apoiados por um plano militar liderado por Ramalho Eanes." Este episódio estará hoje, de forma um pouco mais detalhada, no meu blog: https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/25-de-novembro-celebrar-ou-nao-6612?tc=214097511944.

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/25-de-novembro-uma-tentativa-de-golpe-falhada/

https://sicnoticias.pt/pais/2025-11-23-video-marcha-dos-audazes-assinala-50-anos-do-25-de-novembro-e-critica-guerra-politica-sobre-a-data-8102c80b

https://www.rtp.pt/noticias/politica/parlamento-assinala-50-anos-do-25-de-novembro-em-sessao-igual-ao-25-de-abril_e1700251

https://pesnahistoria.blogs.sapo.pt/25-de-novembro-celebrar-ou-nao-6612?tc=214097511944

https://www.jpn.up.pt/2015/04/26/40-anos-do-prec-ilusao-liberdade-ninguem-fala/

 

 

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publicado às 07:05

Faleceu o historiador António Borges Coelho

por Elsa Filipe, em 17.10.25

Tinha 97 anos e assistiu por isso a importantes eventos do curso histórico do nosso país, da Europa e do Mundo! Além de historiador, António Borges Coelho, foi também poeta e ficcionista. Escreveu sobre a "Inquisição portuguesa e a ocupação islâmica daquele que viria a ser o território português." Passou pela queda da República, por uma ditadura, pela 2ª Guerra Mundial e pela chegada da democracia. Assistiu ao encerramento do país devido ao Covid, o mesmo covid que o mantinha internado e que terá contribuído para a sua morte.

Nascido em Murça a 7 de outubro de 1928, quis "ser frade franciscano," tendo arriscado ir "para o seminário de onde acabaria por ser expulso."

No final da década de 1940, ingressa na "Faculdade de Direito Lisboa, mas abandona os estudos para dedicar-se exclusivamente à política," participando de forma ativa "na campanha presidencial de Norton de Matos."

"Em 1949 integra o Movimento de Unidade Democrática (MUD) Juvenil e, depois, o Partido Comunista Português (PCP). A 3 de janeiro de 1956, já como dirigente do PCP na clandestinidade, é preso pela PIDE, recolhendo à cadeia do Aljube."

Em junho de 1957 é julgado e "condenado a dois anos e nove meses de prisão," seguindo "para a prisão de Peniche." É ainda na prisão que casa "com Isaura Silva, em 1959. Um ano depois, Borges Coelho opta por não integrar a fuga de Peniche de vários dirigentes do PCP," recusando assim voltar à clandestinidade. A sua pretensão era a de se dedicar "a uma carreira como historiador após a libertação" algo que mais tarde acabaria por acontecer, mas não sem antes ter sido "castigado e enviado para o Aljube." Ali, foi sujeito "à tortura da estátua e a seis meses de isolamento."

Regressado à prisão de "Peniche, dedica-se ao trabalho de escrita histórica. Em 1962 ser-lhe-ia concedida liberdade condicional por um período de cinco anos." Diz o PCP que, depois de adquirida a liberdade, Borges Coelho toma a decisão "de se desvincular do PCP," mas não se sabe se terá sido assim, uma vez que terá continuado a "manter um posicionamento de estreita colaboração com o Partido."

"Em 1967 conclui a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Lisboa. Em 1968 torno-se jornalista, n’ A Capital." Depois disso, veio ainda a trabalhar "no Diário de LisboaDiário PopularVértice ou Seara Nova." 

"Já em liberdade continuou os trabalhos que tinha iniciado no Forte de Peniche e escreve “As Raízes da Expansão Portuguesa”, livro que foi apreendido das livrarias e que o levou a ser submetido a novos interrogatórios pela PIDE. No ano seguinte publicou “A Revolução de 1383”.

Além destes, publicou as obras "Questionar a HistóriaA Inquisição em Évora (1987)" bem como "vários volumes da História de Portugal."

Até 2020, foi "presidente do Conselho Consultivo do Museu do Aljube, com quem colabora desde o seu início. Em 1999, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada, em 2018 com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e em 2019 foi-lhe atribuída pelo Governo a Medalha de Mérito Cultural." Tinha publicado este ano, na editora Caminho, "a coletânea Poemas."

Uma das fontes vivas da memória deixou-nos e deixou mais pobre o nosso país. O PCP diz dele que é um "homem vertical, solidário, homem de causas e de luta pela liberdade, pela emancipação social, por um Portugal democrático, de progresso e de justiça." Pelo menos, ficaram a sua escrita e os seus relatos e isso será mais difícil de apagar.

Fontes:

https://www.publico.pt/2025/10/17/culturaipsilon/noticia/morreu-historiador-antonio-borges-coelho-2151280

https://www.museudoaljube.pt/doc/antonio-borges-coelho-jorge-tavares-da-silva/

https://www.pcp.pt/faleceu-antonio-borges-coelho

 

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publicado às 22:57

Durante a manhã de 11 de março de 1975, "Lisboa é palco de inesperadas movimentações militares: uma parelha de T6 sobrevoa Lisboa a baixa altitude em ação de intimidação." Mais tarde, pelas 11h50, "forças da Base Aérea n.º 3 atacam o Regimento de Artilharia Ligeira n.º 1 (RAL 1), provocando um morto e 14 feridos."

Ao princípio dessa tarde, "o general António de Spínola e os principais implicados no golpe fogem para Espanha."

A Intentona de "11 de Março de 1975 apenas é compreensível se analisarmos de uma forma mais ampla os acontecimentos e processos que tiveram lugar desde o 25 de Abril de 1974 e, em particular, a partir do 28 de Setembro."

Ocorre que depois da revolução de abril de 1974, as forças políticas ligadas a Spínola e à direita democrática, queriam que "Portugal liderasse uma organização" em que estivessem incluídas as antigas colónias, e que nestas fossem garantidos os interesses do país. Ora esta posição é oposta à defendida pelos militares que tinham preparado o 25 de Abril, "principalmente os membros do Movimento das Forças Armadas (MFA)."

Este Movimento apoiava por sua vez "os partidos totalitaristas marxistas africanos que estavam a consolidar controlo dos territórios recém-independentes, chegando os portugueses do MFA até a posicionar-se contra as organizações de nativos oposicionistas," apoiando a sua "supressão." 

Os "novos regimes africanos em consolidação," não poupam nem os portugueses que por lá se tinham mantido, nem os "autóctones, que são apoiantes do antigo regime ou pertencentes a facções opostas," o que leva a uma situação de precariedade, "com crescentes conflitos, perseguições políticas e exclusões dos processos transicionários na forma de violência, exílios, prisões e mesmo mortes." Spínola queria fazer valer a "independência dos territórios," garantindo a estabilidade dos portugueses, enquanto o MFA, cansado da guerra, queria fazer sair, quão rapidamente fosse possível, as tropas, não se mostrando "dispostos a prolongar a sua presença em África."

Em setembro de 1974, "na tentativa de contrariar uma viragem à esquerda liderada por diversas forças, Spínola" promove "a realização de uma manifestação de apoio à sua política." No entanto, essa manifestação acaba por ser inviabilizada por um grupo de civis apoiantes da esquerda e por "elementos do Movimento das Forças Armadas (MFA)." Em consequência desta derrota, o general Spínola demite-se e é substituído por Costa Gomes. 

Demitem-se também os "ministros da Defesa e da Comunicação Social, Firmino Miguel e Sanches Osório, respetivamente." A 1 de outubro de 1974 toma posse o III Governo Constitucional, que se torna "o segundo mais longo de todo o processo revolucionário português, abrindo uma fase de alguma estabilidade." É constituído ainda o "Conselho dos Vinte, organismo que reúne todos os oficiais com funções político-militares: membros da JSN, da Coordenadora do MFA, comandante-adjunto do COPCON e ex-membros da Coordenadora que, nesse momento, desempenhavam funções de ministro ou Alto-Comissário." Pretendia-se assim articular a "intervenção política dos militares e evitar as decisões de cúpula da JSN."

No entanto, a imagem internacional do país passa a ser uma preocupação.

A de março de 1975, Spínola é informado de um possível ataque que visaria a direita. Perante esta suposição denunciada pelos "serviços secretos espanhóis" é preparado um "novo golpe."

Segundo informação que correu então, "1500 pessoas ligadas à direita," estariam sob a mira de forças de esquerda, ligadas ao PCP e à União Soviética. Esta operação (também conhecida como operação matança da Páscoa e que teria entre as personalidades a abater 500 oficiais e 1000 civis apoiantes de Spínola), levou a que no dia 11 de março, o Regimento de Artilharia de Lisboa fosse "atacado por aviões e helicópteros da Força Aérea e por unidades de paraquedistas. Um soldado é morto durante o ataque e, no dia seguinte, regista-se também a morte de um civil." 

Perante tal falha, "Spínola escapa de avião para Espanha e outros oficiais pedem asilo político noutras embaixadas localizadas em Lisboa." Uma das consequências é a radicalização "à esquerda" e a consequente nacionalização (nomeadamente, da banca). Mais tarde, "Vasco Lourenço, implicado nesta alegada ação," acabaria por declarar "que não havia lista nenhuma na operação matança da Páscoa, e que afinal tinham "sido serviços de informação americanos ou russos que puseram a circular essa ideia com o fim de «lançar a casca de banana aos spinolistas»." 

Fontes:

https://50anos25abril.pt/historia/11-de-marco/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_11_de_Mar%C3%A7o_de_1975

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-tentativa-de-golpe-de-11-marco-de-1975/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Matan%C3%A7a_da_P%C3%A1scoa

https://50anos25abril.pt/historia/11-de-marco/equilibrios-politicos-no-pos-28-de-setembro/

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publicado às 23:08

O 25 de abril de 1974 trouxe grandes mudanças na governação do país, o que levou a uma clara distinção "entre aqueles que pretendiam prosseguir a revolução com o MFA, incluindo-se aqui o governo liderado por Vasco Gonçalves e os que entendiam que o caminho se deveria fazer com os partidos políticos sufragados em eleições."

As opiniões dividiam-se e o país acabou por assistir, nos meses seguintes, a vários "episódios de violência de grupos mais ou menos organizados da extrema-esquerda e da extrema-direita. Sentia-se no ar "a ameaça de uma guerra civil." O que se passou no dia 25 de novembro, foi um entre tantos momentos importantes, naquele período de dois anos que vai de 1974 a 1976. Foram dois anos complicados, em que se sucederam diferentes governos provisórios, em que uns se demitiram e outros se revoltaram. Não se fala disto nos livros de História e, só se o formos pesquisar, é que encontramos alguma informação sobre esta data e sobre os vários acontecimentos que se sucederam à Revolução de Abril. Parece que foi apenas uma data e que no dia seguinte, a democracia estava instalada. Nada disso...

Em julho de 1975, Vasco Gonçalves, faz a proposta de recentrar "a autoridade no Conselho da Revolução, e a liderança política num diretório que incluiria também Costa Gomes (na altura Presidente da República) e Otelo Saraiva de Carvalho." Vasco Gonçalves, ficaria conhecido como "companheiro Vasco" e já em finais de 1973, tinha integrado o movimento dos capitães e participado na comissão responsável pela elaboraço do "programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), assegurando também a ligação ao general Costa Gomes," sendo por isso uma das várias personalidades importantes e que é tantas vezes esquecido.

Outros, seriam os integrantes de um grupo organizado e composto por "um conjunto de militares moderados e pertencentes ao Conselho da Revolução," designado de “Grupo dos Nove." Este grupo vem propor que "o poder seja exercido pelos partidos políticos.

Este grupo, "composto por militares conotados com a ala moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA)", lançaram a 7 de agosto de 1975, um documento que ficaria conhecido como o “Documento dos Nove”, em que se "opunham aos modelos socialistas da União Soviética e da Europa do Leste, assim como à social-democracia europeia."

Vieram ainda a propor um "sólido bloco social de apoio a um projeto nacional de transição para o socialismo", mas que fosse de forma inequívoca, "inseparável da democracia política”.

No entanto, acabam por ser mesmo afastados do "Conselho na sequência dessa tomada de posição," e  em resultado do confronto entre as diversas forças políticas durante o chamado " Verão Quente de 1975," Vasco Gonçalves acaba também por ser afastado do poder, "não voltando à ribalta política."

No dia 12 de novembro desse ano, "houve uma manifestação reivindicativa que contou com dezenas de milhares de trabalhadores e que cercou o Palácio de São Bento durante dois dias," impedindo que os deputados que estavam lá dentro pudessem sair "durante dois dias." O Ministério do Trabalho recusa-se a receber os manifestantes o que conduz a ações mais radicais e à mobilização contra o VI Governo Provisório. 

Na semana seguinte o governo - algo que eu nunca pensei que pudesse acontecer - "entra em greve por falta de condições para exercer o seu mandato." O país acaba por ficar num limbo em que não tem quem o governe.

É a 25 de novembro que toda esta tensão chega ao limite, "com setores da esquerda radical a tentarem um golpe de estado," com o Grupo dos Nove a ser responsável por "organizar e desencadear as operações do 25 de Novembro fazendo a tal correção para a via democrática, liberal." Este golpe acabou por sair frustrado pelos militares que se encontravam em conluio com o “Grupo dos nove”, apoiados por um "plano militar liderado por Ramalho Eanes."

Mas qual o motivo de tanta discórdia, se a verdade é que este golpe pôs fim aos extremos (da esquerda e da direita)?

Para Joaquim Vieira, autor da biografia de Mário Soares, “o 25 de Novembro assinalaria o fim do PREC e a entrada de em fase de normalização democrática, com a consagração do projeto constitucional e a realização dos atos eleitorais nele previstos." O resultado, acabou por ser a vitória da chamada "ala moderada do Movimento das Forças Armadas (MFA)," que "marcaram o fim do chamado Processo Revolucionário Em Curso (PREC)."

Diz também o autor que, o próprio Mário Soares, se fosse vivo, teria recusado participar nestes festejos. O seu papel foi, no entanto, preponderante na vitória da democracia conseguida nessa data. Mário Soares era, na época, "ministro sem pasta do IV Governo Provisório," e como representante do PS, assinaria "o primeiro pacto constitucional MFA-Partidos," em abril de 1975. Depois da sua demissão, "juntamente com os restantes ministros do PS, a 10 de julho de 1975," e da "demissão dos ministros do PSD", a crise agravar-se-ia.

A 23 de novembro, o discurso que faz durante a "manifestação do PS na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa," acabou por ser um marco simbólico "na mobilização que visava conter os setores mais radicais do processo revolucionário português."

Este ano, pela primeira vez, a data será celebrada na Assembleia da República - assinalando-se a passagem de 49 anos desde o acontecimento. Porquê só este ano - ou porquê este ano?

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/25-de-novembro-uma-tentativa-de-golpe-falhada/

https://ensina.rtp.pt/artigo/vasco-goncalves-o-companheiro-vasco/

https://zap.aeiou.pt/mario-soares-foi-o-grande-vencedor-do-25-de-novembro-hoje-recusaria-comemoracoes-642928

https://www.museu.presidencia.pt/pt/conhecer/presidentes-da-republica-biografias/presidentes-da-democracia/mario-soares/

https://observador.pt/2024/04/24/o-principal-aliado-civil-do-25-de-novembro-foi-o-ps-e-nele-mario-soares-declara-marcelo-rebelo-de-sousa/

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publicado às 22:14

Faleceu aos 91 anos, Celeste Caeiro, a mulher que na manhã de 25 de abril de 1974, teve um gesto que ligou para sempre os cravos à revolução de abril. Um gesto simples que, ao ser fotografado e, depois repetido, ano após ano, celebrado e comemorado em eventos, escolas e homenagens, marcou esta revolução com cor, a cor da liberdade.

Celeste tinha 40 anos e vivia no Chiado, em Lisboa. Era filha de mãe espanhola, "de Badajoz e de pai desconhecido, com dois irmãos mais velhos," tendo crescido na Casa Pia. Naquele dia, o café onde Celeste trabalhava, na rua Braancamp, em Lisboa, "completava um ano e o patrão tinha comprado cravos para oferecer aos clientes," mas a presença dos militares nas ruas fez com que o comércio não abrisse e as flores iriam "estragar-se no armazém, por isso pediram aos funcionários que os levassem para casa."

Celeste foi até ao Chiado para ver o que se estava a passar, e numa troca de palavras com um dos militares que lhe pede um cigarro, ela que não fumava, resolveu dar-lhe um dos cravos que levava. Foi o primeiro. Dali, "até perto da Igreja dos Mártires deu o resto dos cravos que levava a outros militares," mas nunca pensou que a revolução se viesse a chamar "dos cravos" devido àquela singela oferta.

 

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Este ano, na comemoração dos 50 anos desta data, Celeste Caeiro esteve presente na Avenida da Liberdade, em Lisboa, naquele que poderá ter sido "um dos momentos mais marcantes da celebração. Ao lado da família distribuiu cravos, 50 anos depois do dia que a marcou na história do país. Os fotógrafos presentes registaram o momento: as fotografias foram amplamente partilhadas e Celeste Caeiro celebrada pela importância que teve."

"Em 1988, perdeu tudo no incêndio do Chiado, ficou sem casa, sem fotografias e sem as recordações de uma vida. Em abril deste ano tinha sido já noticiado que sofria de graves problemas de visão, audição e locomoção. Viva em casa da filha e da neta em Alcobaça. "

Foi militante comunista, mulher trabalhadora, de convicções fortes, que enfrentou uma vida de dificuldades com perseverança," pode ler-se num comunicado do PCP. Celeste já faz parte dos livros de HGP, só espero que na suaa constante "simplificação" não se perca também o nome desta mulher e de tantosoutros homens e mulheres importantes e sobre os quais as nossas crianças e jovens pouco ou nada sabem.

Fontes:

https://www.publico.pt/2024/11/15/sociedade/noticia/morreu-celeste-caeiro-mulher-deu-cravos-militares-25-abril-2112039

https://www.dn.pt/3592434070/morreu-celeste-caeiro-a-mulher-que-deu-o-cravo-ao-25-de-abril/

 

 

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publicado às 22:35

Fausto

por Elsa Filipe, em 01.07.24

Hoje Portugal perdeu um dos grandes compositores dos últimos tempos. Um dos grandes músicos que traduziram "para as canções de intervenção o sentimento do povo português," sendo por isso inevitável associar o nome de Fausto aos nomes maiores da música portuguesa, como "José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Mário Branco," Sérgio Godinho ou Luís Cília. Além de um grande defensor da liberdade, Fausto era único na sua forma de compor e de cantar.

"Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias nasceu a bordo do navio Pátria, durante uma viagem entre Portugal e Angola. Seria registado a 26 de novembro de 1948 em Vila Franca das Naves, Trancoso." Foi ainda em Angola, de onde regressaria anos mais tarde, que formou a sua primeira banda, Os Rebeldes.

Com 20 anos, Fausto concluiu "a licenciatura em Ciências Políticas e Sociais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina", em Lisboa. "É nessa época que grava Chora, amigo chora, que em 1969 lhe deu o Prémio Revelação do antigo programa de rádio Página Um, transmitido pela Rádio Renascença."

Depois da revolução do 25 de abril de 1974, "ajudou a fundar o GAC" (Grupo de Ação Cultural — Vozes na Luta), juntamente com José Mário Branco, Afonso Dias e Tino Flores." Dos seus trabalhos podemos destacar Pró que Der e Vier (1974) e Beco sem Saída (1975), Madrugada dos Trapeiros (1977) ou Histórias de Viajeiros (1979). Em 1989, venceu o Prémio José Afonso, com "Para Além das Cordilheiras." 

"Um dos seus concertos mais marcantes ocorreu em julho de 1997, em Belém, nas celebrações dos 500 anos da partida de Vasco da Gama para a Índia."

Gravou ao todo 12 álbuns entre 1970 e 2011. O último a ser lançado, foi Em busca das montanhas azuis, em 2011.

O músico tinha 75 anos e morreu durante a última noite, vítima de doença prolongada.

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/morreu-fausto-bordalo-dias-criador-de-por-este-rio-acima_n1582941

https://observador.pt/2024/07/01/morreu-o-cantor-e-compositor-fausto-bordalo-dias/

 

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publicado às 18:54

Este ano, fui pela primeira vez para Lisboa para comemorar um dos feriados mais importantes que hoje temos. E foi um dia muito bem passado, apesar de não ter ficado para assistir ao desfile na Avenida da Liberdade, ponto alto das comemorações e que, pelo que pude constatar depois pela televisão, terá mesmo superado qualquer desfile efetuado até hoje.

Saímos de barco até ao Cais do Sodré e logo aí deu para perceber que ia muita gente a camnho de Lisboa para fazer o mesmo que nós. No banco da frente, um casal, com uma criança conversava sobre a Revolução. Ele, português, explicava à sua companheira, brasileira, como é que tinha sido a Revolução que terminara com o regime, com a ditadura e com a falta de liberdade do povo. "Que lindo! Lá não foi nada assim... morreu muita gente" responde ela a certa altura, com um misto de admiração pelo povo português e de tristeza ao relembrar o tempo de ditadura que, no Brasil, "terminou" em 1985. Voltei a vê-los mais tarde no Terreiro do Paço (ou, Praça do Comércio), assim como muitas outras famílias e grupos que tinham apanhado o mesmo barco que nós. 

No Terreiro do Paço, havia uma alegria e emotividade bastante presente nas pessoas e reparei desde logo numa coisa: um grande número de crianças, acompanhadas pelos seus pais e algumas também pelos avós! Ali estava representada a passagem de testemunho que se pretende alcançar com estas celebrações. É que em parte alguma me senti envolvida em saudosismos ou em tristeza. Desde que cheguei a Lisboa que o sentimento geral era de reconhecimento pelo valor dos nossos combatentes do Ultramar, pelas ações não só dos participantes conhecidos do MFA, mas sobretudo pelo reconhecimento daqueles que participaram nas ações que levaram à Revolução. A restauração das viaturas penso que foi um dos maiores sucessos uma vez que, ao porem estes carros na rua, dois feitos foram alcançados: restaurar memórias a uns, dar a conhecer o passado, a outros.

"No total, 14 viaturas foram restauradas desde 2018, em Paço de Arcos e Santa Margarida. O trabalho foi feito pela Associação Portuguesa de Veículos Militares Antigos, com o apoio do Exército Português."

As crianças e os jovens estavam delirantes com o facto de se poderem sentar-se nas viaturas, ou entrar dentro da conhecida chaimite Bula. A presença de muitos ex-combatentes trouxe também uma grande emotividade. Se de manhã cedo, vi na televisão o desfile destas viaturas, ainda na presença das altas-entidades, perto da hora do almoço, as mesmas viaturas deslocaram-se do Terreiro do Paço, até ao largo do Carmo, acompanhadas por um mar de gente que ia aplaudindo entusiasticamente. Nesta deslocação, muitas pessoas (além dos ex-combatentes presentes e de alguns militares que os acompanhavam) tiveram a oportunidade de fazer este percurso sentadas nas viaturas, ou empoleirdas nas mesmas.

À tarde, aproveitamos para conhecer alguns locais, como a Igreja de S. Domingos (no largo de S. Domingos, perto da Praça D. Pedro IV, vulgo Rossio), de mostrar ao meu filho a estação do Rossio, que pela sua dimensão é um pouco diferente daquelas que ele já conhecia e de lhe apontar alguns edifícios importantes naquela zona - como por exemplo, o Café Nicola (por cima do qual, terá vivido Eça de Queirós), o Teatro D. Maria II, com a sua fachada lindíssima e o emblemático elevador de Santa Justa (o qual digo desde já, desculpem, mas está demasiado caro para ser utilizado, pelo que apenas o apreciamos do exterior).

Descemos pelas escadinhas do Carmo e, confesso, fiquei super feliz por encontrar café a um preço normal de 0.75€ num local típico que se chama Ginginha do Carmo e que é uma pequena loja encaixada por baixo das escadinhas e que data de 1930! Um pouco mais tarde, subimos pela ingreme e típica calçada do Carmo, o que acabou por me estragar um pouco o resto do dia, porque a meio da subida os meus joelhos deixaram de querer colaborar.

Depois do meu filho ter voltado a  subir aos muitos veículos militares, no meio de um mar de gente que inundava o largo do Carmo, fomos visitar o Quartel do Carmo (que neste dia e, até dia 12 de maio, tem visitas gratuitas - vão que vale muito a pena). Dizer que o Quartel do Carmo, que já foi um convento e que é o quartel da GNR desde a 1ª República (1910), está muito bem preservado e tem uma exposição, não só alusiva ao 25 de Abril de 1974, mas à história da Guarda, desde o tempo da monarquia.

É engraçado pensarmos que o "Quartel do Carmo foi o último bastião da monarquia em Portugal que caiu a 5 de outubro de 1910" e que mais tarde, no dia "25 de abril de 1974 foi palco da «Revolução dos Cravos» que pôs fim ao regime autoritário de 48 anos em Portugal, dando lugar à liberdade e à democracia." Foi neste quartel que Marcello Caetano se refugiou para tentar escapar dos revoltosos e, de onde, ao fim do dia a chaimite Bula lhe serviu de transporte pelo meio da multidão, levando-o até ao quartel da Pontinha junto com alguns dos seus ministros (essa zona também teria sido interessante de visitar...). Uma placa circular dedicada aos revoltosos e, em especial, ao papel determinante de Salgueiro Maia, assinala desde 1992 nessa praça o local onde no dia 25 de abril de 1975, estava o veículo militar que disparou contra as janelas do quartel do Carmo.

O próprio largo em si é digno de uma visita, pela sua história e pela espetacularidade dos seus edifícios. Desde logo, aqui resistem as ruínas do Convento do Carmo, construído no século XIV, onde se encontra instalado o Museu Arqueológico do Carmo (que não visitamos por estar muita gente, mas que tem um valor de 5€ para residentes em Lisboa e 7€ para os não-residentes). No meio do largo, encontramos um chafariz que data de 1771 e que é abastecido pelo Aqueduto das Águas Livres. Neste largo, residiu Fernando Pessoa.

Começou a levantar-se algum vento e, como o meu joelho direito, devido ao esforço, decidiu aliar-se à minha anca e quase me vi incapaz de andar, resolvemos terminar o nosso passeio com  um geladinho, sentados nos degraus do monumento escultório que representa D. Pedro IV. Não ficamos para a marcha pela Avenida da Liberdade, com grande pena minha... nem conseguimos ir ao Quartel da Pontinha, outro local emblemáticos nestas comemorações, mas felizmente, as televisões permitiram-me já em casa, acompanhar os vários momentos importantes que aí decorreram.

Que venham mais 50, mais 100! Que a liberdade não caia, que as janelas não se encerrem e as portas de Abril não se encerrem!

Fontes:

http://arquivomuseugnr.pt/entrada.aspx?Pagina=Convento%20do%20Carmo-&IDP=0

https://sicnoticias.pt/video/2024-04-07-25-de-Abril-viaturas-historicas-foram-recuperadas-para-reconstituir-coluna-militar-4410c3e6

 

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publicado às 23:33

Há 50 anos Portugal vivia em ditadura, mas a coragem de um grupo de capitães e de todos os militares que os seguiram sem virar as costas, mesmo podendo fazê-lo, fez com que hoje eu e todos os cidadãos deste país, possamos viver em democracia. A liberdade foi uma conquista que se celebra com uma data, mas que foi preparada e tentada em várias ações e com muita luta e, não devemos esquecer cada um desses momentos, nem as pessoas que os fizeram. Às vezes, resumimos Abril a meia dúzia de pessoas que tiveram um papel fundamental e que por isso ficaram reconhecidas. Mas porque o golpe deu certo. Temos de relembrar também todos os ex-combatentes, temos de lembrar todas as figuras que estiveram nos bastidores e todos aqueles que deram a cara por nós, pelo nosso povo!

Logo, irei possivelmente dar um passeio até ao Seixal, onde se prepara já uma grande festa de celebração, porque temos de dar a cara, temos de estar presentes e temos de continuar a semear cravos. O nosso contributo tem de ser nas ruas e tem de ser no local e momentos próprios. Amanhã (daqui a umas horas) celebraremos meio século da Revolução. 

Somos um país que reclama. Mas somos um país que só reclama porque estes capitães se juntaram num posto de comando na Pontinha (mais especificamente num barracão de arrumações do Regimento de Engenharia n.º 1)  e daí comandaram todas as movimentações das tropas que fizeram a Revolução. Hoje peço que se fale mais disto nas escolas - não se pintem só cravos, falem com as crianças e com os nossos jovens sobre estas pessoas. Que saibam que foi Salgueiro Maia que disse:

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos”.

Que saibam que foi a voz de João Paulo Dinis que anunciou "aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, «E Depois do Adeus», uma canção de José Niza." E que esta foi a primeira senha para o avanço das tropas. Quantos conhecem o capitão Bicho Beatriz, o capitão Pombinho, o capitão Santos Coelho e, tantos outros, capitães, tenentes e soldados que, naquela noite, podiam ter sido presos ou morrido, mas que mesmo assim, foram em frente.

Nos livros da escola, não se fala no capitão Santos Silva, nem do Capitão Mira Monteiro, nem do capitão Patrício, e nem dos "tenentes Andrade Silva, António Pedro, Sales Grade, Ruaz e Nave," e nem do papel do Major Fontão durante as operações.

Quantos saberão que na Rua Capelo, na Rádio Renascença, Paulo Coelho, "locutor de serviço, nessa noite, no programa «Limite», sem saber dos compromissos assumidos por dois dos seus colegas, Carlos Albino e Manuel Tomás, quase faz perigar a transmissão da senha à hora exata por ter antecipado a leitura de anúncios publicitários." Foi preciso que "no final da leitura do primeiro anúncio, Manuel Tomás, também presente na cabine técnica," tenha dado "um pequeno safanão (aparentemente sem intenção) na mão do técnico de som José Videira," provocando o "arranque da bobine que" continha a senha. "Então, pela voz previamente gravada de Leite de Vasconcelos, através dos potentes emissores da Rádio Renascença, ouve-se a primeira quadra da canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso. Já no final da transmissão, o agente da Censura, ali presente, dá sinais de que escutara algo que não previra." Ali, tudo podia ter ido por água abaixo.

E que, a preparação para a movimentação, tenha passado por sabotagem? O "oficial do MFA, Capitão Rosário Simões tinha acordado que a sua missão seria neutralizar a unidade evitando a sua ação contra o Movimento, pois a maioria dos oficiais não era aderente. Na véspera foram sabotadas as Bocas de Fogo por forma a não poderem ser utilizadas, mas com capacidade de retorno rápido caso elas viessem a ser necessárias para o Movimento."

Apesar de todas as movimentações que aconteciam pelo país, às 03h16m, a interceção de uma chamada telefónica "entre o Ministro da Defesa, Dr. Silva Cunha e o Ministro do Exército Gen. Andrade e Silva," dá a conhecer ao Posto de Comando das operações que àquela hora "o Regime não tinha conhecimento do desenrolar das ações."

A coluna que entrou nessa madrugada em Lisboa e que era comandada pelo capitão Salgueiro Maia, "era composta por um Esquadrão de Reconhecimento a 10 Viaturas Blindadas e um Esquadrão de Reconhecimento a 160 homens com 12 viaturas de transporte, 2 Ambulâncias e 1 Jeep." Depois de ocupados vários pontos fundamentais, entre eles o aeroporto de Lisboa, foi dada ordem para que os elementos que tinham ocupado o Rádio Clube Português transmitissem o 1.º Comunicado. "Foi com emoção que em todo o País centenas de militares ouviram pela voz de Joaquim Furtado o primeiro de vários comunicados que haviam sido redigidos pelo Maj. Vitor Alves. Estava previsto que os comunicados seriam lidos pelo Maj. Costa Neves, no entanto, Joaquim Furtado, locutor de serviço ao RCP, ao saber das intenções do Movimento de imediato se prontificou para o fazer. No comunicado pede-se para que a população se mantenha calma e apela-se à classe médica para ocorrer aos hospitais."

Ao longo do dia, a emissão do RCP prossegue com a leitura de outros comunicados que iam colocando a população a par do que se passava, mas também com a transmissão de "canções de luta, algumas delas há muito proibidas ouviram-se: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Luís Cília, José Mário Branco."

Às 7h30m, uma "coluna da GNR que estacionara no Campo das Cebolas avança para o Terreiro do Paço. O Cap. Salgueiro Maia dirige-se ao Comandante da coluna dizendo-lhe que deve sair da zona pois não tem potencial para o enfrentar. O Comandante da Coluna obedece e retira."

Muitos foram também os episódios em que representantes das forças do Regime, acabaram por se mudar para o lado dos revoltosos. E eu penso que isso fez toda a diferença, para que o número de vítimas, tivesse sido tão baixo. 

A fragata N.R.P. Alm. Gago Coutinho, "integrava uma força NATO (StaNavForlant) que navegava rumo à barra Sul do Porto de Lisboa, com destino a Nápoles, quando recebe ordem do Vice-Chefe do Estado Maior da Armada, Almirante Jaime Lopes, para abandonar a formatura e colocar-se frente ao Terreiro do Paço à ordem do Estado Maior da Armada." 

Pelas 7h50m, o Almirante Jaime Lopes, "dá ordem ao Comandante do navio para abrir fogo sobre os tanques do Exército posicionados no Terreiro do Paço. O Comandante da unidade não cumpre a ordem, alegando que estava muita gente no Terreiro do Paço e , também, que vários cacilheiros se encontravam nas proximidades."

Por volta das 8h30, o "Ministro do Exército" apercebe-se da ocupação do Terreiro do Paço e vendo a sua situação muito complicada, "ordena a abertura, à picareta, de uma parede de tijolo que dava para o Ministério da Marinha. Aí conjuntamente com o Ministro da Marinha e outras entidades fogem, dirigindo-se para o parque de estacionamento da Marinha entrando para uma carrinha que os irá conduzir ao RL2." Mais ou menos à mesma hora, a fragata Gago Coutinho, "recebe uma comunicação do Posto Comando da Marinha efetuada através da Esquadrilha de Submarinos e do Centro de Comunicações da Armada, onde se encontrava o Cap. Ten. Almada Contreiras, dando indicação para o navio sair a barra." Caldeira dos Santos, 1º Tenente, informa que "a situação a bordo está controlada e que a guarnição estava com o Movimento."

Às 14h00m, o Secretário de Estado da Informação e Turismo, Dr. Pedro Pinto, já se "apercebera da inevitabilidade da queda do regime. Resolve assumir a mediação entre o Governo e o General Spínola. O Dr. Nuno Távora, Chefe de Gabinete do Dr. Pedro Pinto desloca-se a casa do General António de Spinola entregando-lhe uma carta do Secretário de Estado." Duas horas depois, o "Dr. Nuno Távora e o Dr. Feytor Pinto são recebidos pelo Prof. Marcelo Caetano" que é informado "da disponibilidade do Gen. Spínola para aceitar a sua rendição e assumir o poder." Pouco tempo depois, Marcelo Caetano reune com o capitão Salgueiro Maia e é ao aperceber-se da inevitabilidade da situação, que decide render-se desabafando: “assim o poder não cai na rua." Às 16h45m, o general Spínola fica "mandatado pelo PC para receber a rendição de Marcelo Caetano. Spínola é também informado que os dirigentes do regime serão conduzidos ao Funchal por um DC 6 da Força Aérea."

Às 19h30m, o Capitão Salgueiro Maia teme que, "perante um Largo do Carmo a transbordar de população entusiasmada" se possa desenrolar uma onda de violência durante a operação de retirada "dos membros do regime do Quartel do Carmo." É numa chaimite, de nome Bula, que são retirados "Marcelo Caetano, Rui Patrício, César Moreira Baptista e outros membros do Governo."

O que mostrou a força desta revolução também foi o apoio do povo! Ainda antes do poder passar para o lado dos revoltosos, já as pessoas que entretanto se juntavam nas ruas, festejavam a queda do Regime. A felicidade estava estampada nos mesmos rostos onde antes havia medo. Às 20h30, o povo de Lisboa que desde manhã seguia as movimentações militares, "começava a engrossar pelas ruas da Baixa, à medida que as Forças do Movimento iam conquistando objetivos. A população começou a dirigir-se maciçamente para a sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso." Infelizmente, às 21h00m, os agentes da "PIDE, vendo a sua sede cercada de população, abrem fogo indiscriminado tendo efetuado 4 mortes e 45 feridos que serão socorridos pela Cruz Vermelha e encaminhados para o Hospital S. José e Hospital Militar." São estas as quatro vítimas que se lamentam deste dia e que o ensombram, mesmo não tendo sido por culpa dos militares revoltosos, mas sim de um grupo de agentes da PIDE.

No fim, nem tudo correu como desejado. Por volta das 23h45m, a Junta de Salvação Nacional "reune-se" e é aprovada "a Proclamação da Junta" que designa como "Presidente da República, o General António de Spínola. Esta designação foi contrária ao anteriormente acordado com o MFA que escolhera o General Costa Gomes."

Apesar de tudo, é proclamada a primeira lei da primeira República pós-regime.

"Lei n.º 1/74: destitui das suas funções o Presidente da República e o Governo, dissolve a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado e determina que todos os poderes atribuídos aqueles aos referidos órgãos passem a ser exercidas pela JSN."

O decreto-lei nº 169, vem também dar início ao processo de descolonização e ao fim da guerra colonial.

"DL n.º 169/74: exonera os Governadores Gerais dos Estados de Angola e Moçambique e determina que as suas funções passem a ser desempenhadas interinamente pelos Secretários Gerais desse Estados."

À 01h30m, já no dia 26 de abril, é lida já "perante as câmaras da RTP, a Proclamação da Junta de Salvação Nacional" por António de Spínola.

Às 07h00m, o "Almirante Américo Tomás, sob escolta de uma força do Movimento, comandada pelo Ten. Cor. Almeida Bruno segue para o aeroporto de Lisboa. À mesma hora o Ten.Cor. Lopes Pires acompanha o Prof. Marcelo Caetano e os ex-Ministros Silva Cunha e Moreira Baptista ao aeroporto onde todos embarcam" num avião da "Força Aérea rumo ao Funchal onde ficam com residência vigiada."

Só no dia 26, pelas 9h30m, os homens do RC3 "desarmam os agentes da PIDE/DGS e passam revista às instalações."

E tantas pessoas se poderiam ouvir sobre o que aconteceu nestes dias! Que outros pontos de vista interessante teríamos concerteza sobre a Revolução que, teve o seu ponto alto no dia 25 mas não se esgotou no Terreiro do Paço, nem no largo do Carmo. Amanhã, muitos irão descer a Av. da Liberdade. Absorvam tudo o que puderem, porque são 50 anos de liberdade!

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/a-revolucao-de-25-de-abril-de-1974/

https://www.castilholegalcorp.com/pt/publicacoes/capitaes-de-abril-a-memoria-de-um-futuro-incerto/194/

https://a25abril.pt/base-de-dados-historicos/o-dia-d/

 

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publicado às 19:00

50 anos - as motivações do MFA e a Intentona

por Elsa Filipe, em 20.04.24

As motivações que, há 50 anos atrás, levaram ao Golpe Militar que poria fim ao Regime, foram principalmente de cariz profissional. O governo tinha aprovado dois decretos-lei (o 353 e 409, de julho e agosto de 1973) "para responder às necessidades da guerra colonial." Os oficiais, que tinham tido uma formação militar de quatro anos, "não aceitavam poder vir a ser ultrapassados pelos novos oficiais milicianos, cuja formação seria feita apenas em dois semestres."

O Movimento dos Capitães pretendia "recuperar o prestígio das Forças Armadas e, mesmo depois de terem conseguido que Marcelo Caetano, suspendesse os decretos, continuaram a reunir-se, de forma clandestina. O objetivo era "efetuar uma mudança de Regime" de forma a acabar com a guerra colonial.

"Como eram eles que comandavam os soldados nas três frentes de batalha, tinham a noção de que a guerra estavam longe de estar ganha, até pelo apoio que os povos africanos, a viver em más condições em muitas regiões, davam aos movimentos de libertação."

Angola e Moçambique, continuavam num impasse e "a Guiné estava quase toda controlada pelo PAIGC."

Em dezembro de 1973, o grupo mandatou "Vasco Lourenço, Vítor Alves e Otelo Saraiva de Carvalho como Comissão Coordenadora para planear um golpe militar." O caso das manifestações em Moçambique chegou ao conhecimento do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), Costa Gomes, e foi abordado por Vasco Lourenço e Otelo em reunião com António de Spínola, o vice-chefe do EMGFA." António Spínola, publicaria em 1974, pouco tempo antes da revolução, um livro que seria, à época, bastante esclarecedor e polémico.

A 5 de março de 1974, numa reunião clandestina, foi criado o "Manifesto dos Capitães, de que Melo Antunes era um dos autores. Esse documento deixava clara a politização do movimento, passando a defender-se o fim da guerra colonial e uma solução negociada para a independência dos povos africanos, o desmantelamento do regime e a implantação de uma democracia de tipo ocidental, o prestígio das forças armadas e o fim do isolamento de Portugal."

"Marcello Caetano, consciente do mau estar entre as forças armadas, convocou os generais para uma sessão de apoio ao governo, a 14 de março de 1974." Esta reunião chamar-se-ia de "Brigada do Reumático", não tendo comparecido Costa Gomes nem António Spínola, que foram exonerados dos cargos por Marcello Caetano Caetano. Este facto, apenas aumentou o seu "prestígio junto do Movimento dos Capitães."

"A 16 de março de 1974 houve uma tentativa, falhada, de golpe militar nas Caldas da Rainha" e que ficaria conhecida como a "Intentona das Caldas." A coluna, "comandada pelo major Armando Ramos" tinha saído do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha e seguiu até "às portas da capital." Deviam ter recebido apoio de outras forças, como Lamego, Mafra e Vendas Novas, mas nenhuma apareceu. Sem sinais do apoio esperado, a decisão foi "abortar o golpe e regressar ao quartel. Foi só depois de chegarem às Caldas que foram cercados pelas forças fiéis ao regime, vindas de Leiria e de Santarém." Por volta das 17 horas e "após várias horas de negociações, os revoltosos renderam-se."

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/levantamento-militar-nas-caldas-da-rainha/

https://ensina.rtp.pt/explicador/as-motivacoes-do-golpe-militar-de-25-de-abril-de-1974/

 

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publicado às 13:59

Já que ultimamente se fala em celebrações, deixo-vos aqui uma que também deve ser referida, pois aconteceu precisamente há 50 anos, poucos dias antes da Revolução de Abril. Neste caso, tratou-se de uma "cerimónia de solidariedade com o regime" que foi levada a cabo "por oficiais-generais dos três ramos das Forças Armadas," e que veio a ficar conhecida por «Brigada do Reumático».

Os "generais Costa Gomes, António de Spínola e o almirante Tierno Bagulho," não compareceram e por isso, foram "exonerados" no dia seguinte. Costa Gomes e António de Spínola, já tinham, no entanto, sido escolhidos a 1 de dezembro do ano anterior, em Óbidos, como Chefes do Movimento das Forças Armadas.

"Em nome dos oficiais presentes falou o Chefe do Estado Maior do Exército general Paiva Brandão." Os participantes, afirmaram a sua "fidelidade ao regime do Estado Novo e prometeram defender a política ultramarina da nação."

Marcello Caetano, em resposta a esta cerimónia, agradece desta forma aos seus participantes: «O país está seguro de que conta com as suas Forças Armadas e em todos os escalões destas não poderão restar dúvidas acerca da atitude dos seus comandos». Dias depois, seguiria para Lisboa uma coluna do Regimento de Infantaria nº 5 das Caldas da Rainha, composta com cerca de 200 militares. Esta coluna tinha a intenção de derrubar o poder e a tentativa, que acabaria derrubada em pouco menos de 20 horas, foi designada por "intentona ou golpe das Caldas." Esta foi a primeira tentativa de derrube do regime por "oficiais ligados ao MFA."

Na sessão parlamentar de 19 de março, "o deputado Albino dos Reis condena aquele movimento, que qualifica como subversivo, de insubordinação e de rebeldia."  

Cerca de um mês depois, tal como sabemos, o Movimento das Forças Armadas acabava com o Estado Novo e com Assembleia Nacional, dando origem ao processo de descolonização e independência das antigas colónias."

"Fontes:

https://a25abril.pt/arquivos-historicos/arquivo-rtp/brigada-do-reumatico/

https://app.parlamento.pt/comunicar/Artigo.aspx?ID=947

https://media.rtp.pt/descolonizacaoportuguesa/pecas/o-programa-do-mfa/

 

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publicado às 19:53


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