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Caderno Diário

Caderno Diário

20
Ago21

Partiu

Elsa Filipe

O barco partiu hoje, para longe, para nunca mais voltar. A viagem final será eterna, mas estarei a olhar o mar para te ver passar na traineira cheia de gaivotas a tentar comer o peixe fresco. A saudade virá com o cheiro do salmoura e do o gasóleo da doca. Há quantos anos já nem cheiravas assim?

01
Ago21

Precipício

Elsa Filipe

O azul do olhar foi-se esfumando, talvez porque já não vês o mar da janela. A janela que te tirámos e que só querias para olhar o horizonte. 

A vida que foi feita de histórias é para mim hoje uma dúvida. Quem foste e como aqui vieste parar, o que fizeste? Não sei quase nada. Tinha 9 anos quando descobri que não tinhamos laços de sangue, mas a partir desse dia jurei que teriamos sempre laços de amor. 

Não sei quanto tempo estarás cá depois de hoje teres feito nove décadas de vida, mas sei que não és mais a mesma pessoa, que não estás aqui como estavas. Percebi que tens revolta, ódio e solidão no olhar, que está cinzento, aguado, sem a vida que aos poucos, se vai esfumando. Que magoas com as palavras aqueles que estão a fazer o melhor que sabem com os meios que têm para te ajudar. Talvez já nem nos queiras ver, que nem queiras ajuda, que queiras apenas ficar com os teus demónios.

Mas isso não permitirei. O precípicio não é o caminho para o mar calmo que desejas alcançar.

26
Jun21

A luta não termina

Elsa Filipe

Tem sido difícil passar com distinção por este maldito virús, cumprindo tudo o que nos é imposto mais pela vontade de ajudar e ser parte da solução, do que por medidas e regras que na prática nem todos cumprem.

Esta semana, a turma do meu filho veio de isolamento porque hou ve um caso positivo. Admirei-me, sou sincera, que tivessem passado tantos meses até ao primeiro caso. Aconteceu e ninguém teve culpa, nenhum de nós estava livre (ou está) de contrair e transmitir o virús. Mas agora já estamos na reta final para acabar o ano letivo, faltava tão pouco e parece que a sensação é de uma injustiça ainda maior.  O sentimento é de apoio, de compreensão e de ajuda na tentativa de manter todas as crianças bem, naquilo que nos for possível, para que ainda possam regressar daqui a uns dias e se depedirem uns dos outros antes das férias de verão.

No próprio dia testamos nós dois com os testes rápidos da farmácia e hoje o resultado do teste "oficial" confirmou que é negativo, e isso traz-nos esperança. Pese embora estejamos todos (penso eu, eu pelo menos estou) preocupados com a criança que testou positivo e que têm estado debilitada. Principalmente, psicologicamente, está-me a afetar como mãe, pondo-me no lugar da mãe desta criança. Se estou aflita com o meu e ele está otimo...

Eu estou a passar por isto com receio. Receio porque tenho de faltar a um trabalho que ainda há tão pouco tempo consegui, aflita de cada vez que penso que passados uns dias a comida vai começar a acabar e terei de sair de casa ou pedir a alguém que o faça por mim (posso, mas não me sinto confortável em o fazer, é um sentimento estranho, algo que me aprisiona e que não sei explicar).

Os casos estão a aumentar muito no Seixal e em Sesimbra. Tem sido notícia quase todos os dias, expondo-se as nossas gentes ao olhar inquiridor e maldoso de tanta gente. O virus está por todo o lado. Temos de cuidar uns dos outros, temos de fazer a nossa parte.

13
Mai21

Envelhecer

Elsa Filipe

Faz parte da vida, é um processo natural. Envelhecer não pode ser desistir da vida, nem abandonar o corpo à sorte do que há-de vir.

Porque é que envelhecer não pode ser apenas tranquilo?

Sem medos e sem dores? O olhar é o primeiro a ir, sem cor, baço, sem vida que resta de um centelha de esperança que já não está ali.

Ainda não me preparei para que me envelheçam os meus.

08
Mar21

Dia da Mulher

Elsa Filipe

Eu sou mulher e ter um dia que nos é dedicado a nós, faz-me muito orgulhosa. Mas eu nunca fiz nada para merecer este dia. Sou apenas eu, mãe e trabalhadora, que faço o que posso, mas nada de excecional.

Mas na minha vida tive e tenho mulheres excecionais. A minha mãe que já me deixou foi uma delas, uma lutadora até ao fim, sempre de cabeça erguida enfrentava o mundo. A mãe que nos trazia sempre limpas, arranjadas, mas que nos deixava brincar na terra, apanhar caracóis de chinelos e chegar a casa cheias de picos, ou subir às figueiras para roubar figos na Fonte de Carvalho. Que às 07h da manhã nos levava ainda ensonadas para a cozinha da Santa Casa, para ir trabalhar. A mãe que me levava à noite para o carnaval, que me ensinou como "sobreviver" à confusão e a amar aquela festa, desfilando comigo e com a minha irmã nos primeiros anos, na escola de samba "Juventude na Baía". Que me mostrou que podemos mentir mas só no dia das mentiras, que podemos fazer badalos no carnaval e colocar espuma de barbear em todos os carros da rua (incluindo no do meu pai, para os vizinhos não desconfiarem). Ainda me viu entrar para o meu curso, que sempre apoiou, mas já não me viu completar o 1º ano, nem nunca chegou a andar de carro comigo. Na verdade, a minha primeira viagem a conduzir de carta acabadinha de tirar foi de minha casa para o IPO e nas (poucas) semanas seguintes era assim que treinava a condução, no carro do meu pai ou do meu tio, vingando "sozinhas" nas rotundas de Lisboa, na auto estrada - nunca fui medrosa a conduzir.

Dela herdou a minha irmã muitas caraterísticas e por isso a admiro todos os dias mais, por estar sempre, sempre, pronta a ajudar. Mesmo nos piores momentos, levanta-se e parece um furacão enfrentando tudo e todos. Quase telepaticamente, dou-me a pensar em ligar para ela e está o telemóvel a tocar. Independente muito cedo, tal como eu, fez da raiva e da tristeza força, uma força imensa que leva tudo à frente se preciso for. E que me deu as meninas mais lindas do mundo que amo como se fossem minhas tanto como ao meu filho.

E a minha avó, sem a qual nada disto teria sido possível. Pois foi ela que lutou com unhas e dentes por salvar os filhos e a si mesma, dando-lhes uma vida melhor, que enfrentou todos e depois, nos deu a nós tudo. A minha avó esteve sempre lá, a perda da sua menina fez-la sofrer até hoje e deixou marcas muito profundas, mas é aquela avó a quem recorremos quando precisamos de alguma coisa, que nos dá tanto sem "mostrar" que dá. 

A avó onde ficavamos o verão todo para podermos ir para a praia com os nossos primos e os nossos amigos. Que me deixava ler aqueles livros que estavam nas prateleiras e que ainda não eram para a minha idade. E que ensinou a ler, a escrever, a contar, somar multiplicar, dividir. Que me ia todos os dias levar o lanchino ao portão da escola, a casa de quem ia almoçar, lanchar e às vezes ficava também para juntar ou dormir. 

Estas foram as mulheres que mais me influenciaram no meu crescimento. As que tenho em mente sempre que tenho de fazer uma escolha. As que moldaram a minha personalidade.

10
Fev21

Abraços virtuais

Elsa Filipe

Sou mãe e educadora, adoro escrever, gosto muito de ler. Na minha vida passei por muitas coisas, conheci muitas pessoas que me enriqueceram e passei por várias situações que quis esquecer.

Neste momento, trabalho com crianças do 1º ciclo. Um desafio diário, que abracei há pouco mais de um ano e que me traz, todos os dias, uma enorme satisfação. Mas o desafio agora, é conseguir chegar-lhes todos os dias, recebê-los nos meus braços, acarinhá-los. E isso não é possível. Já no Centro, com as máscaras e o distanciamento tinham acabado os abraços e os beijos. Não podíamos. Era triste, mas havia sempre um bocadinho para conversar, para saber como tinha corrido o dia, para os escutar. Eu estou aqui, na mesma com toda a disponibilidade, e por isso às vezes é tão difícil terminarmos os trabalhos de casa! Não dá tempo, porque queremos conversar, trocar experiências, falar do que sonhamos e nos assustou. As minhas crianças (que são um pouquinho minhas, me desculpem os pais) estão a passar por situações difíceis. Estão fechadas em casa, sem os amigos. Começar um 1º ano traz marcas - que normalmente serão boas lembranças, os primeiros amigos, os primeiros professores, o dente que caiu, a bola que foi para o telhado... mas este ano? Este 1º ano, que memórias irá deixar nestes meninos? Quero tanto fazer a diferença, quero tanto dar-lhes boas memórias!

Ser professora, ser educadora, é isto, é proporcionar experiências, aprendizagens. E abraçá-los.

E no meio disto tudo, junto o ser mãe, o estar do outro lado, o "ouvir" as aulas do meu filho, os colegas que estão com ele desde a pré e que no 5º ano continuam juntos. E, confesso, quando os oiço, choro tantas vezes. Não consigo explicar porquê, mas tenho pena destes meninos, tenho pena do meu filho não estar a viver a sua passagem da infância para a adolescência com a devida liberdade. 

08
Fev21

O novo confinamento

Elsa Filipe

Quando em Março do ano passado, o país "fechou" eu fui daquelas pessoas que achou a medida extremamente necessária para controlar a evolução da pandemia. Não sabíamos quanto tempo íriamos ficar fechados, nem o que iria acontecer quando se levantassem as medidas mais restritivas. 

No meu trabalho, ensino crianças de várias idades num centro educativo, consegui ficar em teletrabalho, aprendi a trabalhar com o Zoom, a descarregar livros de fichas para o computador, inscrevi-me em muitas plataformas dirigidas a pais e a professores. Fez-me crescer como profissional, abriu-me novos horizontes, fui "obrigada" a pensar o ensino de outra forma, para que os alunos se mantivessem ativos e interessados nas minhas aulas.

Digo-vos que o pior foi sentir-me impotente perante o avançar da pandemia, mas a esperança voltou com o desconfinamento, com o regresso das crianças para as férias (mesmo com todas as medidas de proteção e cuidados, conseguimos ter sempre diversão).

Neste momento, entramos num novo confinamento. Já sabemos que vai ser difícil. E só passaram alguns dias e já me sinto mais cansada do que se andasse a trabalhar fora. A viagem para lá e para cá, um momento em que a rádio é a minha companhia, a cabeça tem tempo para espairecer, pensar na vida. Tinha tempo de almoço, ia comer e ia caminhar na praia quando o tempo estava bom, ou ficava dentro do carro a ler um livro.

Em casa, por incrível que pareça, esse tempo desapareceu. Faço as mesmas horas on-line, mas o tempo de preparação, de organização de conteúdos, leva-me o resto do dia. Ao fim de 8, 9 horas no computador, só quero um banho e cama. Gostava de ir fazer uma caminhada, mesmo aqui à volta do prédio só para esticar as pernas, mas depois a inércia vence e visto o pijama em vez do fato de treino! Às vezes faço ioga, faço alongamentos,  (tenho fibromialgia e problemas de coluna, por isso fazer aulas com saltos por exemplo não consigo).

Com vocês, como é? Também sentem que o trabalho on-line é mais cansativo? 

12
Jan21

O novo ano pode ser pior que 2020?

Elsa Filipe

Ao tocar as badaladas do novo ano, não senti que tivesse havido uma mudança. Não saí de casa, apenas espreitámos da janela o fogo de artifício, mas o sentimento era de angústia.

Este ano, apenas pedi saúde, mesmo sabendo que o ritual é uma estupidez, mas não quis arriscar a perder uma oportunidade de pedir saúde, mesmo que seja a mim mesma. As mudanças partem em primeiro lugar de nós mesmos e não de milagres.

Mas tal como previra, o novo ano, não trouxe milagres. Terminados os festejos do Natal e do Ano novo, o balanço é trágico. Basta olharmos como estão os hospitais.

À porta, há pessoas idosas, que continuam a ser abandonadas pelos seus na época festiva. Não é novidade que nos dias antes do Natal há um acréscimo de velhos doentes, que são deixados nas urgências para que a família passe a quadra sem o trabalho que dá a sua presença. Vão depois buscá-los uns dias depois da passagem de ano. Assisti a diversas situações dessas na primeira pessoa. 

Este ano, vêm-se nas salas de espera onde as máquinas de comida não são abastecidas, à espera que alguém os vá buscar ou, pelo menos, que lhes leve uma sopa. O ser humano é assim mesmo. Miserável.

Um homem, seus 80 anos, agarra a porta do carro de uma mulher e abre-a, tentando sentar-se no lugar do pendura, pedindo que o leve a casa, por favor, que "se esqueceram dele ali". A pandemia não justifica a miséria humana, a falta de amor ao próximo. A família, que reza ao jantar de Natal e reclama por ter de estar agora confinada, ou sem trabalhar, é a mesma que sobrecarrega os serviços hospitalares com o abandono dos seus, enquanto outros morrem dentro da célula sanitária de uma ambulância sem chegar a dar entrada no hospital por falta de espaço.

Espero que volte rápido o confinamento, se possível, mais rígido, mais vigiado, com multas e penalizações para quem não cumpre. 

A maldade essa, não passa com uma vacina.

01
Ago20

Um novo membro

Elsa Filipe

Durante a última semana, acompanhei vários posts no facebook que pediam a adoção de um animal. Cães e gatos, bebés, adultos e séniores são largados todos os dias, abandonados muitas vezes à fome à morte certa, não fossem pessoas excecionais que os recolhem, alimentam e cuidam, dando-lhes uma nova oportunidade de vida.

Num desses post, "apaixonei-me" por uma gatinha. Foi largada dentro de um saco plástico para morrer, no meio da Serra da Arrábia. Bebés de poucas semanas, olhos ainda azuis de "leite" sem a mãe por perto e com muitos predadores a circular por ali...

Hoje fui buscá-la a casa da senhora que era FAT dela e dos irmãos, com o meu filho e trouxemo-la para casa. É uma pequena bolinha. Vai ter todos os cuidados necessários e muito amor para crescer forte e saudável.

Nenhuma descrição de foto disponível.

18
Jul20

Ligação ao mundo

Elsa Filipe

Esta semana iniciei uma formação através da plataforma Teams com o tema "Processos de comunicação com crianças e jovens". Este foi um grande desafio pois, além de ter de criar novas estratégias para explorar esta temática não colocando de lado a minha intervenção e experiência como formadora num contexto mais impessoal, permitiu ainda juntar pessoas de vários locais do país incluindo dos Açores. 

As formações que costumo fazer, unem normalmente técnicos de ação educativa, funcionários de escolas e até pessoas que no momento passam por situações de desemprego. Mas normalmente são todas da mesma zona geográfica, distrito, concelho ou até do mesmo agrupamento escolar. Aqui senti a necessidade de lhes dar tempo para a partilha de experiências pessoais e profissionais. 

A chegada da pandemia e a impossibilidade de fazermos a formação presencialmente, trouxe um problema difícil de resolver. Mas aliando as novas tecnologias à enorme vontade que algumas destas pessoas têm de continuar a aprender, fez com que estivessemos juntos numa sala de aula virtual. Numa primeira semana fizemos 10 horas "presenciais" ou síncronas e outras tantas assíncronas com exercícios e trabalhos que lancei através da plataforma e que, rapidamente, me foram sendo devolvidos para correção e avaliação. 

E é fantástico. Digo sempre isso, adoro trabalhar com crianças, mas para mim é de longe bem mais gratificante ensinar as pessoas que estão no terreno a trabalhar com elas. 


Depois de uma semana longa de trabalho, soube bem relaxar um pouco com a companhia de um bom livro, numa esplanada à beira-mar. Estes raros momentos, depois do confinamento, fazem-me sentir livre. O local é propício, por ser uma esplanada espaçosa com as mesas bastante afastadas umas das outras e com uma vista sobre a baía maravilhosa. O nome "Brisa" é que hoje não assentou muito bem, porque era mais uma ventania gelada!

 

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