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Caderno Diário

Gosto de escrever e aqui partilho um pouco de mim... mas não só. Gosto de factos históricos, políticos e de escrever sobre a sociedade em geral. O mundo tem de ser visto com olhar crítico e sem tabús!

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Senhor das Chagas... as tradições da minha terra

Todos os anos, são centenas as pessoas que enchem as ruas da vila de Sesimbra para assistir à procissão em honra do Senhor Jesus das Chagas, padroeiro dos pescadores de Sesimbra, que se realiza na tarde de 4 de maio, feriado municipal.

Desde pequena que me lembro da festa do Senhor das Chagas. A imagem, imponente, do Cristo pregado na cruz, percorre a 4 de maio algumas das ruas da vila, saindo da Igreja "de cima", fazendo a sua tradicional paragem no Largo da Marinha e terminando novamente na Igreja Matriz de Santiago. A procissão é composta por diversos elementos desde os "anjinhos", aos pescadores, escuteiros, à Banda da Sociedade Musical Sesimbrense e à Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Sesimbra. Nas janelas, algumas pessoas colocam colchas brancas e muitas flores. O andor é sempre enfeitado com muitas flores e é levado por representantes das várias instituições e pessoas da comunidade sesimbrense. Pelo caminho, vão alternando os hinos tocados pela Fanfarra e pela Banda, com cantares das pessoas que acompanham, tocando em especial "A teus pés".

Mas a festa começa vários dias antes, quando a imagem é trazida em procissão (mais pequena e simples) do local onde está todo o restante ano, do altar da Igreja do Senhor Jesus das Chagas, conhecida também como a Igreja da Misericórdia e fica durante cerca de duas semanas na Igreja Matriz de Santiago. Durante este tempo, é realizada a Novena - nove missas, à noite onde se celebram diversos temas e instituições - os pescadores, os bombeiros, os voluntários, as crianças...

Durante estes dia decorre também a feira. Antes a feira era realizada na Avenida da Liberdade, com barraquinhas que iam desde a curva "do desportivo" até ao Largo do Jardim. Os carrocéis eram muitos e ficavam no Campo da bola (hoje Estádio Vila Amália), mas agora a festa é mais pequenina, tendo perdido muito do seu brilho e tradição. Lembro-me que era nesta altura que se compravam andorinhas para colocar nas fachadas das casas, ou que se trocavam as panelas por outras novas e se adquiriam novas peças para os enxovais. Nós, as crianças, nessa altura, gostavamos de umas bolas coloridas cheias de serradura e com um elástico que prendiamos no dedo. Havia também as farturas e as pipocas que só se comiam nessas noites. Ah! E vestiamos sempre roupa nova (era o dia dos vestidos feitos pela avó, ou comprados na boutique e dos sapatos novos com "souquetes").

E são boas memórias as desses dias...

Durante alguns anos participei nas procissões, através da Fanfarra onde toquei caixa e timbalão. Pisavamos o alecrim, desfilando praticamente na frente da procissão. Rapidamente, os collants ficavam com buracos e as pernas cheias de arranhões por causa de alguns ramos maiores do alecrim que nos picava as pernas, e no fim, os joelhos ficavam com enormes hematomas por causa do timbalão que durante cerca de duas horas ou mais nos batia nas pernas a compasso.

Depois deixei de ir e a verdade é que, como estou normalmente a trabalhar neste dia (só é feriado em Sesimbra) já estou com saudades de dar uma espreitadela à festa, porque acredito que as tradições são para se manter - salvo algumas exceções, claro - e que esta festa, tal como outras, são manifestações simbólicas que unem as pessoas de uma comunidade.