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Clara Pinto Correia era escritora, bióloga e professora universitária. Tinha apenas 65 anos e "foi encontrada morta em casa em Estremoz esta terça-feira." O que aconteceu para se perder, de forma tão precoce, uma mulher que (nas palavras do próprio Presidente da República) "juntava à alegria de viver, uma inteligência e um brilho que se expressaram na intervenção oral e escrita, no magistério científico e na comunicação com os outros," e que nunca deixou "ninguém indiferente"?

Clara nasceu em Lisboa a 30 de janeiro de 1960. Era do mesmo ano e da geração da minha mãe e, apesar de nunca a ter conhecido, sabia-a uma importante escritora. Viveu em Angola, onde o pai cumpria o serviço militar e foi n o Ultramar que lhe "nasceu a paixão pela Biologia." Dizem que foi uma "excelente aluna," tendo frequentado "o Liceu Francês Charles Lepierre" e, mais tarde, "o Liceu Rainha D. Leonor." Estudou Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde termina a licenciatura em 1984. Doutorou-se e ainda foi investigadora numa área muito específica e que estava ligada à clonagem "de embriões de mamíderos." Chegou a especializar-se também em História das Ciências.

Até desconhecia que fosse professora, pois as minhas referências estavam nos artigos que tinha lido na imprensa escrita. Comecei a perder-lhe o rasto e, estava longe de saber daquilo de que a tinham acusado. Infelizmente, o caso das acusações feitas a Clara, deram cabo da sua reputação. Mas é na sua obra que me quero agora focar.

Em 1984, Clara edita o seu primeiro romance, com um estranho título: "Agrião." Mas quem conhece a sua peixão pela natureza, entenderia o título deste e de outros livros. A verdade é que "como escritora, assinou entre 1983 e 2007 mais de quarenta obras, entre as quais se destacou o romance Adeus, princesa, sobre a reforma agrária no Alentejo," livro que acabou por dar "origem a um filme." Escreveu também "literatura infantil, crónica, poesia" e "narrativa." Foi atriz e apresentou programas de rádio.

Escreveu artigos para “O Jornal” (entre 1980-1985), e para o “Jornal de Letras” (entre 1983 e 1986). Escreveu também para a revista "Visão", mas em 2003, e apesar de nem sequer estar em Portugal, foi "acusada de plágio" em duas das crónicas que escreveu para essa mesma revista. Calou-se, mas arrependeu-se de não se ter vindo defender. Num trabalho fotográfico apresentado por Pedro Palma, em Cascais, mostrou-se em poses íntimas, rosto descomplexado e inebriado, que deram que falar e fizeram correr muita tinta na imprensa cor de rosa e não só. Divorciou-se.

Ficou sem trabalho e, como a própria chegou a referir, a segurança social demorou "quase dois anos" para lhe atribuir um "subsídio de desemprego." Queixou-se de ter enfrentado filas onde se sentia olhada de lado...Foi despejada da casa que alugava há 30 anos "no Penedo (perto de Colares, Sintra)." 

Em  2017, enfrentou a "misteriosa morte do ex-marido, Pedro Palma," cujo corpo foi encontrado "dentro da bagageira do próprio carro," no mesmo ano em que recebeu "o Prémio Mulher Empreendedora, no domínio da literatura."

No ano passado, escreveu numa artigo para a Revista Nova Gente, que tinha sido "violada, há cerca de cinco anos, no Natal," por "dois tarados." Além da sua médica, mais ninguém soube - até agora. Afastou-se das suas pessoas, dos que amava, para não os magoar, talvez, magoando-os ainda mais. Quantos de nós nos afastamos, para não aborrecer os outros com os nossos problemas? São escolhas, que fazemos, mas que nos trazem consequências graves. Não sabemos (só eles sabem) o que terá passado, os encontros e desencontros da vida que a levaram a ficar sozinha.

E morreu sozinha... diz-se (mas dizem-se tantas coisas que nunca saberemos o que é verdade e o que é apenas especulação), que ficou durante dias sozinha, sem que ninguém tivesse dado pela sua falta e que foi "encontrada morta pela sua empregada doméstica." Talvez a amiga que lhe valia nos dias de solidão. Aos amigos e à família, os meus sentimentos.

Fontes:

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/cultura/detalhe/morreu-a-escritora-clara-pinto-correia

https://www.novagente.pt/clara-pinto-correia-violacao-que-revelou-dias-antes-de-morrer-fiquei-traumatizada

https://www.flash.pt/celebridades/detalhe/a-macabra-e-misteriosa-morte-do-ex-marido-de-clara-pinto-correia-que-a-biologa-nunca-conseguiu-ultrapassar

https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Pinto_Correia

 

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publicado às 19:29



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