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Caderno Diário

Gosto de escrever e aqui partilho um pouco de mim... mas não só. Gosto de factos históricos, políticos e de escrever sobre a sociedade em geral. O mundo tem de ser visto com olhar crítico e sem tabús!

Caderno Diário

A história do dia que mudou Portugal

Feriado comemorativo do 25 de Abril.

A 24 de abril de 1974, o Movimento dos Capitães - ou Movimento das Forças Armadas (MFA), grandemente composto por capitães que tinham tido participação na Guerra Colonial e apoiados por muitos outros soldados milicianos reuniram-se para pôr em andamento o controlo de vários pontos estratégicos. Os seus objetivos eram claros: acabar com a guerra colonial, libertar os presos políticos, restaurar a liberdade e a democracia em Portugal.

Mas esta revolução teve a sua origem alguns anos antes...  A primeira reunião de capitães terá sido em África, em Bissau na Guiné, e a segunda no Monte do Sobral, nas Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, a 9 de novembro de 1973, após se terem encontrado no Templo romano, em Évora. A última e definitiva reunião antes da revolução, ocorreu a 24 de março de 1974.

Na noite de 24 de abril, o Major Otelo Saraiva de Carvalho, considerado o estratega do movimento que derrubou o regime de Marcello Caetano, instalou um posto de comando secreto no quartel da Pontinha, em Lisboa. Escondidos dos olhares de todos, coordenaram os movimentos das tropas e a ocupação das suas posições.

A primeira senha passou às 22 horas e 55 minutos: a música E depois do adeus”, escrita por José Calvário e cantada por Paulo de Carvalho no Festival da Canção de 1974, tocou na Emissora Nacional e marcou os preparativos das forças revolucionárias, tendo muitas partido rumo à capital, na esperança de um Portugal livre e democrático.

Às 00 horas e 20 minutos, a Rádio Renascença, passa no programa “Limite” uma transmissão gravada com a primeira estrofe de “Grândola Vila Morena”, a canção que Zeca Afonso escreveu para homenagear o cante alentejano e que tinha sido banida pelo lápis azul da censura. A música tocou logo de seguida e foi o segundo sinal. O seu significado: “tropas em movimento”. Agora não havia volta a dar. 

Soldados de Santarém, Estremoz, Figueira da Foz, Lamego, Lisboa, Mafra, Tomar, Vendas Novas, Viseu, e outros pontos do país dirigiam-se para Lisboa.

Pelas 3 horas, as tropas revoltosas, quase em sintonia, iniciavam a ocupação – sem grande resistência - de pontos fulcrais para o sucesso da revolta: o Aeroporto de Lisboa, o Rádio Clube Português, a Emissora Nacional, a RTP e a Rádio Marconi.

O regime só reagiu pelas 4 horas e 15 minutos, quando foi ordenado que as forças sedeadas em Braga avançassem sobre o Porto para recuperar o Quartel-General, no entanto, também estas forças tinham aderido ao MFA e ignoraram as ordens do regime.

Poucos minutos depois - pela voz do jornalista Joaquim Furtado, no Rádio Clube Português - surge o primeiro comunicado do MFA. A participação dos locutores - que acabaram por dar apoio aos revoltosos - foi fundamental para a revolução.

Seguiu-se o Hino Nacional, “A Portuguesa” e a marcha militar "A Life on the Ocean Wavesde Henry Russell e que viria ser o hino do MFA. As forças revolucionárias da Escola Prática de Infantaria de Mafra já estavam a controlar o aeroporto de Lisboa quando às 04 horas e 45 minutos, o MFA lê o segundo comunicado no Rádio Clube Português. 

Com o aeródromo de Tires também ocupado e com a Escola Prática de Cavalaria a ocupar o Terreiro do Paço, surge um terceiro comunicado do MFA: “(...) Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente ainda que involuntário, deverá recolher a suas casas, mantendo absoluta calma. A todos os elementos das forças militarizadas, nomeadamente às forças da G.N.R. e P.S.P. e ainda às Forças da Direcção-Geral de Segurança e Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas, lembra-se o seu dever cívico de contribuírem para a manutenção da ordem pública, o que, na presente situação, só poderá ser alcançado se não for oposta qualquer reação às Forças Armadas. (...)"

Às 6 horas 30 minutos, um pelotão do Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo Alferes Miliciano David e Silva, fiel ao Governo, chega ao Terreiro do Paço. Ao nascer do dia, o confronto está iminente, mas, após conversações, estes acabam por se colocar às ordens do MFA.Quando surge o quarto comunicado, já o MFA sabe que Marcelo Caetano, o Presidente do Conselho de Ministros, a cabeça do regime, está no Quartel do Carmo e, enquanto uma força do Regimento de Lanceiros 2, contrária ao MFA, tomava posição na Ribeira das Naus, é transmitido o quinto comunicado. A população vai assim estando a par do que se está a passar. Àquela hora, no Terreiro do Paço, Salgueiro Maia prendia o Tenente-Coronel Ferrand de Almeida.

No Tejo, a fragata "Gago Coutinho" toma posição frente ao Terreiro do Paço e tem ordens para disparar sobre as tropas de Salgueiro Maia. Neste momento, os revoltosos já não vão voltar atrás. Na fragata que poderia ter aberto fogo sobre Lisboa e atingido as forças instaladas no Terreiro do Paço, dá-se uma revolta a bordo e acaba por desviar para o Mar da Palha.

Os ministros da Defesa, da Informação e Turismo, do Exército e da Marinha, o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, o Governador Militar de Lisboa, o subsecretário de Estado do Exército e o Almirante Henrique Tenreiro que estavam cercados no Terreiro do Paço, conseguem fugir do Ministério do Exército abrindo um buraco na parede. 

Na Ribeira das Naus, o Alferes Miliciano Fernando Sottomayor não obedece às ordens do Brigadeiro Junqueira dos Reis para disparar sobre Salgueiro Maia e as suas tropas. Sottomayor recebe ordem de prisão e a ordem para disparar sobre os soldados revolucionários volta a ser dada. Ninguém a cumpriu e Junqueira dos Reis dispara dois tiros para o ar, abandonando em seguida o local.

Momentos depois, na Rua do Arsenal, o Brigadeiro Junqueira dos Reis dá ordem de fogo sobre o Tenente Alfredo Assunção - enviado por Salgueiro Maia para negociar com as forças de Junqueira dos Reis. A ordem também desobedecida e dizem que o Brigadeiro Junqueira dá três murros no Tenente Assunção.

Com o MFA a controlar as operações pelo país, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, cerca o Largo do Carmo e tem ordens para abrir fogo sobre o Posto de Comando e provocar a rendição de Marcelo Caetano.

Entretanto, a população distribuía comida, leite e cigarros pelos militares presentes no Largo do Carmo, mas forças da GNR – comandadas pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis - tomavam posição na retaguarda das tropas de Salgueiro Maia, em defesa do regime.

Às 14 horas já decorriam conversações entre o General Spínola e Marcelo Caetano, para a obtenção da rendição do Presidente do Conselho, e meia hora depois surge o décimo comunicado do MFA e que dava conta da ocupação dos principais objetivos e de ter o esquadrão do RC 3, comandado pelo Capitão Ferreira, a cercar as tropas do Brigadeiro Junqueira dos Reis.

No Carmo, Salgueiro Maia, ao megafone, faz um ultimato à GNR para que se renda e ameaça rebentar com os portões do Quartel do Carmo, abrindo fogo sobre a fachada do Quartel. Entretanto Pedro Feytor-Pinto e Nuno Távora, da Secretaria de Estado da Informação e Turismo - portadores de uma mensagem do General Spínola para Marcelo Caetano - entram no Quartel e avisam Marcelo Caetano de que Salgueiro Maia está a falar a sério e que os próximos disparos não serão para o ar.

Salgueiro Maia segue-os cerca de meia hora depois para receber a rendição, mas Marcelo Caetano informa que só se renderá a um Oficial-General para que o poder não caísse na rua. Acabou por ser o General Spínola a ir receber a rendição de Marcelo Caetano.

Às 18 horas e 30 minutos, a Chaimite Bula entra no Quartel do Carmo para transportar Marcelo Caetano à Pontinha e, momentos depois, Fialho Gouveia transmite na RTP uma declaração do MFA.

No mesmo dia, a PIDE/DGS, a Legião e a Mocidade Portuguesa foram extintas e os dirigentes fascistas foram destituídos. Registaram-se 6 mortos e cerca de 45 feridos.4 deles eram civis que foram alvejados junto da sede da DGS, um outro era soldado da 1.ª Companhia Disciplinar, em Penamacor, que se encontrava de férias na capital e que seria o único militar a morrer durante a revolução. O sexto foi um funcionário da PIDE.

Por estes homens e mulheres de armas, se mostrou um país farto da situação em que vivia e lutou por um Portugal melhor. Não obstante, os anos que se seguiram não foram fáceis, mas se hoje vivemos em liberdade a eles lho devemos.

 

Fontes:

https://www.tribunaalentejo.pt/artigos/25-de-abril-revolucao-passo-passo (2021)

https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$otelo-saraiva-de-carvalho