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Caderno Diário

Gosto de escrever e aqui partilho um pouco de mim... mas não só. Gosto de factos históricos, políticos e de escrever sobre a sociedade em geral. O mundo tem de ser visto com olhar crítico e sem tabús!

Caderno Diário

Partiu

O barco partiu hoje, para longe, para nunca mais voltar. A viagem final será eterna, mas estarei a olhar o mar para te ver passar na traineira cheia de gaivotas a tentar comer o peixe fresco. A saudade virá com o cheiro do salmoura e do o gasóleo da doca. Há quantos anos já nem cheiravas assim?

Fuga do Afeganistão: em busca da liberdade, ou ficar à espera da morte?

Os soldados americanos estiveram presentes no Afeganistão durante vários anos, mas agora, vão sair. Segundo Joe Biden, o objetivo dos EUA nunca foi construir uma democracia no país, mas derrotar os terroristas responsáveis pelos ataques de 11 de setembro e garantir que a Al-Qaeda não pudesse novamente usar o Afeganistão como base para atacar os Estados Unidos.

O país, fica assim entregue à sua sorte, regressando às mãos (ou ao poder das armas) dos Talibãs, depois de 20 anos, conduzindo a uma tentativa de fuga em massa da população.

 Os Estados Unidos, que assumiram o controle aéreo do terminal aéreo, retomaram os seus voos militares destinados a repatriar cidadãos americanos, pessoal diplomático e milhares de afegãos que trabalharam com as suas forças. 

Nas televisões, vê-se o aeroporto de Cabul, cheio de gente aflita. Desesperada mesmo, pela sua (falta de) sorte, pelo medo de morrer. Os soldados norte-americanos e franceses selecionam quem poderá embarcar num dos voos de repatriação. Pais separam-se dos filhos. Muitos tentaram embarcar em aviões civis que não descolaram e tentaram parar aviões militares em que não conseguiram embarcar. O primeiro avião alemão que iria buscar cidadãos do país, teve que ser desviado para o Uzbequistão. Centenas de pessoas cercaram um avião militar que estava a sair e agarraram-se onde conseguiram do lado de fora. O avião descolou e acabaram por cair enquanto a aeronave ganhava altura. Pelo menos sete pessoas morreram no aeroporto, algumas delas após cairem do avião. 

Homens e mulheres, com o sentimento de tristeza por terem de deixar tudo para trás, sentem também culpa, por abandonarem o seu país. O DN conta-nos a história de Jibran, que teve de deixar toda sua vida para trás. O simples facto de trabalhar como motorista para uma empresa estrangeira torna-o suspeito aos olhos dos talibãs, explica. "Saí do Afeganistão apenas com a roupa que trazia no corpo e com a minha família. Fui direto do trabalho para casa. Tranquei a porta e seguimos para a embaixada da França", conta este homem com cerca de 40 anos. Nos bolsos, carregava sete passaportes - o dele, o da esposa e os dos cinco filhos - e 2000 afegâni (moeda afegã), correspondente a menos de 20 euros.

Outro caso relatado é o de Masud, que conseguiu fugir com a esposa e quatro filhos. Repórter fotográfico em Jalalabad, cidade do leste do Afeganistão que foi alvo de atentados dos talibãs e do Estado Islâmico nos últimos anos, estava em Cabul quando os talibãs entraram na cidade. A família fugiu de carro e conseguiu encontrar-se com ele na embaixada. O grupo escapou o mais rápido possível, sem mala, nem sequer uma fralda para o bebé de dois meses e meio.

A memória que têm da anterior ocupação Talibã, fá-los fugir sem olhar para trás, sem nada. Centenas acabam por entrar pela rampa da cauda de um avião de carga militar - 640 afegãos saíram do aeroporto de Cabul, capital do Afeganistão, com destino ao Catar este domingo. Apesar da carga, e do risco que corriam, os pilotos do C-17 decidiram descolar. De acordo com a revista, o modelo de avião da Boeing teria capacidade para acomodar 134 soldados com os seus equipamentos, embora pudesse aguentar uma carga de 800 pessoas.

A informação foi confirmada nesta segunda-feira por um porta-voz militar do Comando Central dos EUA: “O número incomum de passageiros a bordo deste avião que deixou o HKIA (Aeroporto Internacional Hamid Karzai) naquela noite foi o resultado de um ambiente de segurança ativo que exigia uma rápida tomada de decisões por parte da tripulação, o que, em última instância, garantiu que esses passageiros fossem retirados do país com segurança”, disse a Tenente Coronel Karen Roxberry dos EUA.

Sobre a saída dos soldados americanos deste território, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que já há relatos arrepiantes de abusos de Direitos Humanos em todo o Afeganistão e que está particularmente preocupado com a situação das mulheres e meninas.

 

 

Fontes:

https://www.dn.pt/internacional/fugir-do-afeganistao-viagem-marcada-pelo-medo-violencia-e-culpa-14054840.html

https://brasil.elpais.com/internacional/2021-08-17/a-fuga-de-640-afegaos-a-bordo-de-um-aviao.html

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/08/16/afegaos-desesperados-invadem-aeroporto-de-cabul-e-se-agarram-a-aviao-para-fugir-do-taliba.ghtml

 

 

Haiti, a terra volta a tremer

Depois do forte abalo de 2010 de que ainda me lembro e que nos mostrou as grandes carências vividas naquela zona, este sábado a terra voltou a tremer de forma muito forte no Haiti.

Com epicentro em terra, este abalo, teve uma magnitude 7,2 na escala de Richter e foi sentido pelas 13h29, tendo sido assim mais forte e menos profundo do que o sismo de 2010. Registam-se 1.419 vítimas mortais e 6.900 feridos. Estes números ainda podem aumentar.

Os hospitais estão sobrelotados, não devido ao sismo, mas também devido à pandemia. São muitas as equipas de resgate que se mobilizaram para encontrar sobreviventes entre os escombros, mas infelizmente, é esperada ainda uma grande tempestade que poderá trazer chuvas fortes naquela zona, dificultando e até mesmo impedindo o resgate de vítimas.

Além disto, vive-se um enorme clima de instabilidade devido recente ao assassínio do chefe de Estado do país e da disseminação da violência de grupos criminosos armados.

Sobre este país, sabemos que foi colonizado em 1492, após a chegada de Cristóvão Colombo à América, e que se tornou o primeiro país do continente a conquistar a sua independência e a primeira república a ser liderada por negros, quando derrubou o domínio francês no começo do século XIX. O país já foi invadido e sofreu intervenção dos EUA no século XX e tem um longo histórico de ditadores, como François "Papa Doc" Duvalier e seu filho, Jean-Claude "Baby Doc". A primeira eleição livre do país ocorreu em 1990, mas Jean-Bertrand Aristide foi deposto por um golpe no ano seguinte.

 

Fontes:

https://www.dn.pt/internacional/numero-de-mortos-no-haiti-sobe-para-724--14035217.html

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/07/07/em-2021-haiti-o-pais-mais-pobre-das-americas-enfrenta-onda-de-violencia-alta-de-infeccoes-de-covid-19-e-disputa-politica-com-assassinato-de-presidente.ghtml

 

 

55 anos - a ponte que liga as duas margens

A ponte faz parte das nossas vidas e já não nos imaginamos a olhar o Tejo sem a ter ali. Depois de vários estudos e projetos a Ponte abria ao tráfego a 6 de agosto de 1966, na altura apenas com um tabuleiro, faz hoje 55 anos. Batizada primeiramente com o nome Ponte Salazar, foi cerca de seis meses depois da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, que ganhou o seu nome atual.

A ponte que liga as duas margens do Tejo é muitas vezes comparada com a Golden Gate, em São Francisco, devido às semelhanças entre as duas e por ter sido fabricada pela mesma empresa.

Apesar de já existirem projetos para a construção de uma ponte sobre o estuário do Tejo desde finais do século XIX, foi apenas na década de 1950 que o governo português do Estado Novo avançou com a construção de uma ponte para ligar as duas margens da área metropolitana de Lisboa

De facto, a primeira ideia sobre a construção de uma ponte que ligasse a cidade de Lisboa a Almada, situada na margem esquerda do Tejo, remonta ao ano de 1876. Naquela altura, o engenheiro Miguel Pais sugeriu que a sua construção fosse feita entre Lisboa e o Montijo.

Nos princípios da década de 1950, um dos defensores da construção da ponte sobre o Tejo em frente de Lisboa foi o deputado Pinho Brandão, que na sessão de 28 de Outubro de 1952 da Assembleia Nacional, sugeriu que aquela obra fosse adjudicada como parte das comemorações dos vinte de cinco anos do governo de Oliveira Salazar. A 4 de Dezembro, durante a discussão do Plano de Fomento Nacional, defendeu que a construção da ponte fosse incluída naquele importante programa económico. 

A comissão apresentou o seu relatório em 1957, tendo proposto duas soluções para a travessia do rio, por túnel ou por ponte.Ainda nesse ano, o Ministro das Obras Públicas, Eduardo de Arantes e Oliveira, inseriu a construção da ponte no II Plano de Fomento, e em 2 de Maio de 1958 foi formado o Gabinete da Ponte sobre o Tejo, dirigido por José do Canto Moniz. Antes de se iniciarem os trabalhos propriamente ditos, foi necessário estudar estruturas semelhantes noutros locais.O engenheiro Luís Canto Moniz, sobrinho de José Canto Moniz, foi uma das pessoas encarregues dessa missão. O concurso público internacional iniciou-se em 27 de Abril de 1959, e em 3 de Março de 1960 foram abertas as propostas, tendo quatro empresas concorrido para esta obra. 

A 25 de Fevereiro de 1961 foi assinado o contrato com a empresa United States Steel Export Company, no valor de 1 764 190 contos, estipulando a conclusão das obras até 1966. A empresa apresentou o plano definitivo para a ponte em 3 de Novembro desse ano, que foi aprovado em 9 de Maio de 1962, levando desta forma à adjudicação definitiva para a obra.

A construção começou em novembro de 1962 e prolongou-se por quatro anos. Foram pelo menos 20 os trabalhadores que perderam a vida, bem mais do que o anunciado na altura.

Com início dos trabalhos, no dia 5 de novembro de 1962, e um prazo estipulado de 51 meses, a obra compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía cerca de 15 quilómetros de autoestrada, um viaduto sobre Alcântara, com 945 metros de extensão e um túnel sob a praça da portagem na margem Sul destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a norte com a rede a sul do rio Tejo.

Às 10h39 do dia 10 de janeiro de 1963 é lançado às águas do Tejo o primeiro "caixão" de um conjunto, que serviu para montar a ancoragem Sul, no leito do rio, que iria receber um dos pilares da ponte.
 



Estiveram envolvidos na construção, diariamente, cerca de três mil operários, tendo a empreitada durado menos do que o previsto, sendo entregue e dada como pronta no dia 27 de maio de 1966, dez meses antes da data prevista.


Com as fundações criadas e as duas torres principais construídas, foi necessário estender dois passadiços (passeio do gato, ou catwalk, em inglês), um de cada lado das torres, para facilitar a deslocação dos trabalhadores da obra e para que fosse possível começar a fiação dos cabos principais.



 
 
A Ponte sobre o Tejo, cinquenta anos depois, em pouco se diferencia do dia da inauguração.

Composta por duas torres principais de aço carbono, com uma altura de 190,5 metros acima do nível da água, a 483 metros de cada margem, as torres assentam na rocha basáltica a mais de 80 metros abaixo da superfície das águas do Tejo.

Sendo uma ponte suspensa, com um comprimento total de cerca de 2.280 metros, o tabuleiro rodo-ferroviário foi inicialmente suportado por um cabo suspenso.

Estas foram as principais estruturas as serem construídas suportando todo um vasto tabuleiro com 1.979 metros de comprimento, sendo o restante tabuleiro suportado por pequenas torres de suporte e sustentação. As torres, cada uma composta de duas pernas ou montantes principais, são contraventadas entre si por cinco peças em forma de 'X' e duas travessas horizontais, uma no topo da torre e a outra abaixo do nível da viga de rigidez.



No topo de cada torre foram colocadas e seladas duas grandes peças de aço fundido, que dão apoio aos dois cabos principais de suspensão, constituídos por fios de aço paralelos, organizados em 37 feixes com 304 fios cada um.



Todo este conjunto de fios de aço é cintado e apertado de modo a formar, em todo o percurso suspenso, um cabo com 58,6 cm de diâmetro.



A viga de rigidez e o tabuleiro são suspensos desses grandes cabos que amarram a dois maciços de betão, localizados nas margens. A grande viga de rigidez, com 21 metros de largura e 10,65 metros de altura, contínua em toda a sua extensão, é constituída por elementos soldados que foram depois fixados com parafusos de alta resistência.

O tabuleiro, uma das mais longas treliças do mundo, está assente na viga de rigidez, constituído por um conjunto de longarinas e carlingas de aço sobre as quais assentam painéis formados por uma grelha do mesmo material.



Para além da estrutura em aço, a ponte conta ainda com um grande viaduto, na vertente norte, sobre a zona de Alcântara, com um comprimento de 945 metros, constituído por um conjunto de 11 pilares gémeos, em betão armado, que se encontram ligados por uma travessa horizontal a dez metros do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário, bem como a respetiva zona de amarração dos cabos.



Na margem Sul, para além da zona de amarração, há que referir o túnel, com mais de 600 metros, construído sob a praça da portagem rodoviária, para receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação norte-sul.
Passou a ser, na altura, a ponte com o maior vão suspenso da Europa e o quinto maior do Mundo.
Todo o empreendimento foi inaugurado a 6 de agosto de 1966, do lado de Almada, na presença das mais altas individualidades portuguesas, entre as quais o Presidente da República, Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, o presidente do Governo, António de Oliveira Salazar, e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, passando a ser chamada, oficialmente, Ponte Salazar.

 

Fontes:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/construcao-da-ponte-25-de-abril_es938173

https://www.lisboa.net/ponte-25-abril

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_25_de_Abril

Imagens retiradas do site RTP 

 

Precipício

O azul do olhar foi-se esfumando, talvez porque já não vês o mar da janela. A janela que te tirámos e que só querias para olhar o horizonte. 

A vida que foi feita de histórias é para mim hoje uma dúvida. Quem foste e como aqui vieste parar, o que fizeste? Não sei quase nada. Tinha 9 anos quando descobri que não tinhamos laços de sangue, mas a partir desse dia jurei que teriamos sempre laços de amor. 

Não sei quanto tempo estarás cá depois de hoje teres feito nove décadas de vida, mas sei que não és mais a mesma pessoa, que não estás aqui como estavas. Percebi que tens revolta, ódio e solidão no olhar, que está cinzento, aguado, sem a vida que aos poucos, se vai esfumando. Que magoas com as palavras aqueles que estão a fazer o melhor que sabem com os meios que têm para te ajudar. Talvez já nem nos queiras ver, que nem queiras ajuda, que queiras apenas ficar com os teus demónios.

Mas isso não permitirei. O precípicio não é o caminho para o mar calmo que desejas alcançar.