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Caderno Diário

Gosto de escrever e aqui partilho um pouco de mim... mas não só. Gosto de factos históricos, políticos e de escrever sobre a sociedade em geral. O mundo tem de ser visto com olhar crítico e sem tabús!

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120 anos de uma Associação Real

Hoje comemoram-se os 120 anos dos Bombeiros de Sesimbra. A minha primeira casa, o meu primeiro trabalho, mesmo que na altura com apenas 14 anos eu tivesse uma perspetiva diferente daquela que hoje tenho. Deixo aqui hoje um pequeníssimo registo.

Hoje quero dar os parabéns a todos os homens e mulheres que fizeram e fazem a história daquela casa. Uma associação que nasceu em 1903, fundada por El-rei Dº Carlos I. O rei e o princípe Dº Luiz Filipe (mortos no Regicídio de 1908) foram de facto Presidentes de Honra e Comandantes Honorários desta casa. Em 1904 recebeu o título de "Real".

No Blogue ca Família Real Portuguesa, podemos ler que a "atribuição dos títulos honoríficos ficou a dever-se ao apoio concedido pela coroa à Fundação dos BVS, para o qual concorreu a influência do capitão de fragata D. Fernando de Serpa Pimentel, comandante do iate real "Amélia", Ajudante de Campo de Dom Carlos e amigo do Tenente Alfaro Cardoso, Comandante da Guarda Fiscal em Sesimbra, grande entusiasta da Comissão Organizadora da Associação de Bombeiros."

Na verdade, ambos ofereceram grandes donativos: "o Rei disponibilizou-se desde logo a atribuir a quantia de 300 mil réis destinados à aquisição de uma bomba tipo americana" e o "Príncipe Dom Luiz Filipe decidiu apoiar monetariamente a compra de uma manga de salvação, concedendo para o efeito a verba de 50 mil réis." Estas informações estão na obra de António Reis Marques, sobre a história da Associação e a que é feita referência no blogue (por acaso, eu também tenho esta monografia e devo dizer que está excelente e relata muito bem a história da vila de Sesimbra e da Associação). 

A Associação adoptou como bandeira a então bandeira nacional, azul e branca, passando o símbolo da Monarquia a ser também o dos bombeiros. Mais tarde, com o advento da república, foi adoptada a nova bandeira verde-rubra, situação que se mantém, pelo que a Associação "em qualquer acto, formatura ou desfile, em que se apresente, tem direito às honras e prerrogativas devidas à bandeira nacional", escreve António Reis Marques no seu livro. 

Alguns dirão que os bombeiros de Sesimbra não serão tão antigos, contando apenas desde o ano de 1927, altura do retorno efetivo da atividade dos mesmos na medida em que após o Regicídio e a forte ligação desta casa à monarquia, houve uma grande dificuldade em retomar em pleno as atividades. Mas na verdade, a associação continuou em funções. Em 1931 têm a sua primeira ambulância motorizada.

O local onde está hoje o quartel-sede não foi a sua primeira localização. Ali havia um aterro, onde se transferia o peixe transportado em burros para as carroças que depois o iam distribuir por outras zonas. Este mesmo aterro, ficando numa zona limítrofe à vila foi também aproveitado para construção do Quartel dos Bombeiros Voluntários. Numa fase mais recente, próxima dos finais dos anos 70, o Largo viria a ser remodelado, permitindo maior eficiência na circulação. Em 1978, por deliberação da Câmara Municipal, receberia o nome de Largo dos Bombeiros, numa clara e reconhecida homenagem à corporação de bombeiros.

Na minha primeira noite de piquete, em 1998, eu tinha apenas 14 anos. Sabia pouco da vida mas era uma miúda cheia de vontade de fazer e de aprender. E felizmente, isso nunca me foi vedado pelos meus pais. Conhecia o quartel por já fazer parte da fanfarra à cerca de um ano e pouco, mas não tinha experiência nem formação nenhuma. Na época, era comandante Fernando Gato, e tive a sorte de conhecer e aprender com grandes bombeiros da altura. Recebi as minhas divisas de bombeiro com 17 anos. Era uma casa muito tradicional com uma grande relação com as gentes e com os costumes da terra. Era na altura o quartelo que enchia quando a sirene soava e vínhamos de todos os lados, largando tudo o que não fosse prioritário para acudir aos outros. Muita coisa mudou em mim desde então.

Cresci ali como mulher e como pessoa e levei com as minhas primeiras desilusões da vida. Ali aprendi que ser mulher num mundo de homens é difícil, aprendi a defender as minhas próprias ideias e a argumentar. Aprendi o valor da vida e também da morte. Ali cresci de menina a mulher, ganhei uma carapaça da qual tem sido difícil me livrar, ri muito e chorei ainda mais. Dei a mão na morte e assisti ao nascimento da vida.

 

Fontes:

MARQUES, António Reis, Bombeiros Voluntários de Sesimbra. Origem, Formação e Percurso (1903-2003)

http://realfamiliaportuguesa.blogspot.com/2009/07/dom-carlos-e-principe-dom-luiz-filipe.html

http://ruascomhistoria.sesimbra.pt/largo-dos-bombeiros-voluntarios/