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Caderno Diário

Escrever é algo que me apraz. Ante a minha vontade de criar, muitas vezes me falta tempo. Aqui passo da vontade à prática. Este é um caderno onde escrevo sobre a minha vida pessoal e temas da atualidade que me fazem refletir.

Caderno Diário

Escrever é algo que me apraz. Ante a minha vontade de criar, muitas vezes me falta tempo. Aqui passo da vontade à prática. Este é um caderno onde escrevo sobre a minha vida pessoal e temas da atualidade que me fazem refletir.

Festas e romarias

Hoje dia de Todos os Santos, celebra-se aqui bem pertinho na Arrentela a festa em honra de Nª Sª da Soledade.

A Igreja que alberga a imagem que muitos fiéis devotam, de estilo Barroco, foi em parte destruída pelo terramoto de 1755. É composta por uma só nave. Está revestida por uma série de painéis de azulejos representando cenas da vida da Virgem Maria. O altar-mor, em talha dourada, anterior ao terramoto, possui um conjunto de colunas salomónicas, um minucioso sacrário e uma pintura figurando a Adoração do Santíssimo Sacramento. Na cobertura da nave pode-se observar um magnífico trabalho de estuque em relevo, de várias cores, onde se destaca uma imagem da Padroeira, com a muleta - barco de pesca típico desta região - a seus pés, rodeada de pescadores, fidalgos e dos quatro evangelistas.

O ponto alto da festa decorrerá amanhã na benção dos barcos, na sua maioria embarcações tradicionais que rumam até junto da zona velha da Arrentela e aí "assistem" à passagem da imagem da Santa.

Para conhecer mais sobre as festas e romarias do nosso concelho, Seixal, convido a visitar o blog As Raízes de Amora, onde poderá encontrar acontecimentos e momentos históricos (https://asraizesdeamora.blogs.sapo.pt/).

 

Jorge Sampaio

O ex-presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio morreu com 81 anos, no hospital de Santa Cruz, em Lisboa, onde estava internado desde o final de agosto, devido a dificuldade respiratória e doença cardíaca que já o acompanhava desde há muito.

Filho de mãe professora de inglês, de quem herda o rigor, e de pai médico, investigador, de quem herda a preocupação com o serviço de saúde público, criado numa família burguesa, democrática, que marcou a sua educação e personalidade. Irmão do conhecido psiquiatra Daniel Sampaio. Casou com Maria José Ritta, em Abril de 1974, de quem teve dois filhos, Vera e André, e com quem partilhou a vida privada e pública.

É em 1958, que desponta o seu entusiasmo pela política, talvez por ser o ano da campanha do General Humberto Delgado às presidenciais e ele, mesmo que ainda com 19 anos numa ditadura em que a maioridade era atingida apenas aos 21, ser já presidente da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Havia a vontade de fazer algo e Jorge Sampaio estaria no momento e local exatos para poder fazer a diferença. Funda o MAR (Movimento de Ação Revolucionária), o MES (Movimento de Esquerda Socialista) e o IS (Intervenção Socialista) antes de, em 1978, se tornar militante do PS (Partido Socialista). Embora mais tarde tenha reconhecido publicamente "o erro" de não ter-se inscrito mais cedo, em 1963, quando o PS foi fundado.

Durante quase 30 anos, desempenhou cargos políticos, tendo sido líder do PS. Em 1996 ganha a presidência da República a Soares, só deixando o lugar 10 anos depois. O homem da frase "há vida para além do orçamento" (2004), era tímido e discreto, mas ao mesmo tempo demonstrava uma cultura acima da média. Nem sempre entendido, afirmava que a "democracia global" teria de envolver a "democracia participativa e não só a representativa", mostrando uma preocupação com o futuro do país e do mundo, em especial com os países de expressão portuguesa.

Passou por cinco governos, e entre outros acontecimentos marcantes, assistiu há 21 anos à aprovação de um orçamento que valeu grande investimento na zona do Minho e o famosos "queijo Limiano", assistiu à queda de Guterres e conviveu com Durão Barroso e com a sua "mentira" sobre a Cimeira das Lajes, interrompeu o caminho de Santana Lopes dissolvendo a Assembleia e abriu o caminho para a eleição de José Sócrates. Foi ainda responsável pelos primeiros referendos nacionais, foi recordista de vetos (22, todos ganhos), percorreu os 308 concelhos do país. Não escapou aos escândalos da Universidade Moderna e da Casa Pia e teve um papel fundamental na independência de Timor Leste, que visitou assim que lhe foi possível. Foi o primeiro chefe do Estado português a fazê-lo.

No fim da presidência da República, Kofi Annan escolhe-o primeiro para lutar contra tuberculose e depois para unir as civilizações. O desempenho dessas funções valeu-lhe uma distinção da Organização Mundial de Saúde e o primeiro prémio Nelson Mandela instituído pelas Nações Unidas para premiar "feitos e contribuições excecionais ao serviço da humanidade".

 

Partiu

O barco partiu hoje, para longe, para nunca mais voltar. A viagem final será eterna, mas estarei a olhar o mar para te ver passar na traineira cheia de gaivotas a tentar comer o peixe fresco. A saudade virá com o cheiro do salmoura e do o gasóleo da doca. Há quantos anos já nem cheiravas assim?

Precipício

O azul do olhar foi-se esfumando, talvez porque já não vês o mar da janela. A janela que te tirámos e que só querias para olhar o horizonte. 

A vida que foi feita de histórias é para mim hoje uma dúvida. Quem foste e como aqui vieste parar, o que fizeste? Não sei quase nada. Tinha 9 anos quando descobri que não tinhamos laços de sangue, mas a partir desse dia jurei que teriamos sempre laços de amor. 

Não sei quanto tempo estarás cá depois de hoje teres feito nove décadas de vida, mas sei que não és mais a mesma pessoa, que não estás aqui como estavas. Percebi que tens revolta, ódio e solidão no olhar, que está cinzento, aguado, sem a vida que aos poucos, se vai esfumando. Que magoas com as palavras aqueles que estão a fazer o melhor que sabem com os meios que têm para te ajudar. Talvez já nem nos queiras ver, que nem queiras ajuda, que queiras apenas ficar com os teus demónios.

Mas isso não permitirei. O precípicio não é o caminho para o mar calmo que desejas alcançar.

Otelo Saraiva de Carvalho

Quando eu andava na escola, falaram-me do 25 de Abril, da revolução. Em casa, ouvi várias vezes falar sobre o "antes", de como era a vida, do que a revolução trouxe. Mas a verdade é que só em adulta entendi. Só quando vi a reconstituição feita por atores é que entendi quem era quem, aqueles atores mostraram-me a noite que mudou muitas vidas.

Foi através da televisão que eu depois senti vontade de pesquisar mais sobre o tema (mais do que tinha feito quando aluna para vários trabalhos que fiz sobre o tema). Li romances que retratavam a vida nos anos 50, 60. Não pensei que nada se dissesse (quase nada) quando morre um dos heróis do nosso país, da nossa história moderna. Para muitos pode ter sido apenas mais um coronel ou capitão de Abril, mas não terá sido Amália também mais uma cantora e Eusébio mais um jogador? 

Para mim foi mais do que um capitão.

Nasceu em Lourenço Marques a 31 de Agosto de 1936 e faleceu a 25 de Julho de 2021. Além da sua carreira militar, foi também político e, apesar de se concordar ou não com algumas das suas opções, a verdade é que devemos olhar a história com a importância que esta merece.

As suas primeiras atividades de contestação ao regime deram-se por ocasião da preparação do Congresso dos Combatentes do Ultramar (que teve lugar de 1 a 3 de junho de 1973, no Porto). Exigiu, junto com os outros oficiais em Bissau, a participação de oficiais do Quadro Permanente que exigiam reconhecimento pelo congresso. Foi depois um dos principais dinamizadores do movimento de contestação ao Decreto Lei nº 353/73, que deu origem ao Movimento dos Capitães que depois se transformou em MFA. Esse decreto trouxe grande descontentamento porque faria entrar para o quadro permanente das Forças Armadas, como capitães ou majores, muitas pessoas com uma qualificação e tempo de aprendizagem muito inferiores às dos oficiais do quadro na altura. Em Bissau foi, portanto, criada a Comissão do Movimento dos Capitães (CMC), em que Otelo teve um papel de relevo. É promovido a Major em 1 de Setembro de 1973 e a 7 do mesmo mês faz uma exposição ao Ministro do Exército. Reunidos em Évora, 136 capitães assinam um documento semelhante, seguindo o exemplo da Guiné, seguidos por 94 em Angola e 106 em Moçambique. Em resumo, a contestação foi tal que esse decreto foi revogado (e um seguinte, que "resolvia" o problema dos majores), mas, como diz Otelo no seu livro Alvorada em Abril, o movimento já estava lançado. A 1 de dezembro de 1973, há um plenário mascarado de confraternização em Óbidos, e é criado o MOFA (Movimento de Oficiais das Forças Armadas, cujo nome, por razões óbvias de sigla, mudaria para MFA alguns dias antes do 25 de Abril por sugestão de Spínola).

Após o fracasso da intentona das Caldas de 16 de março de 1974, em que vários militares seus companheiros foram presos, e Otelo não o foi por um triz, tomou a seu cargo desenhar o plano militar de operações que deu origem ao golpe militar de 25 de Abril, sendo, portanto, o estratega indiscutível da Revolução de 25 de Abril de 1974, responsável pelo setor operacional da Comissão Coordenadora e Executiva do Movimento dos Capitães.

Otelo dirigiu também as operações com outros militares, a partir do posto da Pontinha, no Regimento de Engenharia n.º 1, onde esteve em permanência desde o fim da tarde de 24 de abril até ao dia 26 de abril de 1974 e entre outras ações, Otelo também seguiu de perto os acontecimentos do Largo do Carmo, tendo sido ele que escreveu a ordem manuscrita para que Salgueiro Maia iniciasse o fogo contra o Quartel do Carmo.

Depois da revolução, foi nomeado comandante da Região Militar de Lisboa, e Comandante do COPCON, com polémica atuação durante o Processo Revolucionário em Curso.

Pertenceu ao Conselho dos 20 e ao Conselho da Revolução, e é considerado um dos elementos mais carismáticos do Movimento das Forças Armadas.

Nos anos 1980, foi acusado de ter participado da luta armada em prol da revolução proletária como membro da organização terrorista Forças Populares 25 de Abril, tendo sido condenado a 15 anos de prisão por associação terrorista em 1986. Otelo sempre negou essa participação. Em 1991, Otelo recebeu indulto por seus crimes, que foram amnistiados em 2004. 

Muito poderia acrescentar aqui, de uma vida cheia e que em vários aspetos contribuiu para o país que hoje temos. Ele e outros com a devida importância.

Afetações e limitações de circulação

Os casos estão a aumentar muito no Seixal e em Sesimbra. Infelizmente, estas regiões têm sido notícia quase todos os dias, expondo-se as nossas gentes ao olhar inquiridor e maldoso de tanta gente.

Hoje em comunicado do Conselho de Ministros, Seixal e Sesimbra são aplicadas as medidas de Risco muito elevado, o que significa entre outras coisas que voltamos a estar confinados das 23h00m às 05h00m. Todas estas medidas são necessárias, embora me incomodem a mim como incomodam muita gente. A minha vida pessoal não devia estar dependente das medidas anunciadas nas notícias, mas estão. Preciso saber diariamente o que se espera de mim, dos meus comportamentos, para saber até onde posso levar as minhas liberdades. Se saio, se vou, se não vou... 

 

A luta não termina

Tem sido difícil passar com distinção por este maldito vírus, cumprindo tudo o que nos é imposto mais pela vontade de ajudar e ser parte da solução, do que por medidas e regras que na prática nem todos cumprem.

Esta semana, a turma do meu filho foi colocada em isolamento porque houve um caso positivo. Sou sincera quando afirmo que há muito aguardava que isto acontecesse e que se tivessem passado tantos meses até ao primeiro caso positivo. Aconteceu e ninguém teve culpa, nenhum de nós estava livre (ou está) de contrair e transmitir o vírus. Estamos na reta final para acabar o ano letivo. Quando falta tão pouco, parece que a sensação é de uma injustiça ainda maior.  O sentimento é de apoio, de compreensão e de ajuda na tentativa de manter todas as crianças bem, naquilo que nos for possível, para que ainda possam regressar daqui a uns dias e se depedirem uns dos outros antes das férias de verão.

No próprio dia, assim que soube, fui comprar dois daqueles testes rápidos da farmácia e hoje o resultado do teste "oficial" confirmou que ele está negativo, e isso traz-nos esperança.

Principalmente, psicologicamente, está-me a afetar como mãe, pondo-me no lugar da mãe da criança que testou positivo. Se estou aflita com o meu e ele está otimo, como estará aquela família?

Eu estou a passar por isto com receio. Receio porque tenho de faltar a um trabalho que ainda há tão pouco tempo consegui, aflita de cada vez que penso que passados uns dias a comida vai começar a acabar e terei de sair de casa ou pedir a alguém que o faça por mim (posso, mas não me sinto confortável em o fazer, é um sentimento estranho, algo que me aprisiona e que não sei explicar).

Carlos Miguel

Lembro-me do "Fininho" do concurso 1,2,3. Mas a sua carreira foi muito grande e rica! Tanto que fez pela nossa cultura e tão grande a sua luta. Trabalhou com a grande Laura Alves, com Vasco Santana, Raúl Solnado e tantos outros grandes figuras do teatro.

Achava-o engraçado. Nos meus tempos de criança, passava de certo mais tempo a brincar nas escadas da minha avó ou na praia, do que a ver televisão, mas ao jantar havia sempre uma televisão acesa, fosse nas notícias, fosse num concurso que passasse. Podia escrever muito sobre ele, mas será melhor ver a entrevista da própria boca, na Tarde é sua. 

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Lembro-me do "Homem mais belo do mundo", da revista "Lisboa, Tejo e Tudo", de César de Oliveira, Raul Solnado e Fialho Gouveia, em que ele participou, no Teatro ABC, em 1986.

O ator nascido a 11 de Junho de 1943, faleceu aos 77 anos, em Santarém.

O percurso de Carlos Miguel no teatro teve início em 1959, no Conservatório Nacional, em simultâneo com os seus primeiros trabalhos em palco, no Teatro da Trindade, num espetáculo de mímica, que também viria a estudar em Paris.

Na década de 1960, fez parte da Companhia Lírica e da Companhia de Teatro Popular, mas foi na Empresa Teatral José Miguel, que se manteve ativa durante cerca de 20 anos, que se estreou na revista. Foi em 1966, na produção "Mini saias", de Paulo da Fonseca, César de Oliveira e Rogério Bracinha.

O sucesso e a facilidade com que se adaptou ao modelo ditaram o seu futuro nas quatro décadas seguintes, durante as quais entrou em cerca de 200 peças, na maioria de revista, muitas delas 'produções-chave' da história do "teatro musical à portuguesa", como "O prato do dia", "Pimenta na língua", "Ora bolas p'ró Pagode" e "Cala-te boca!...", um desafio à censura dos últimos anos da ditadura.

Participou em teatro de revista como "Lisboa acordou", "Ó pá, pega na vassoura!", "Ó patêgo, olha o balão", "Vamos a votos", "Quem tem Ecu tem medo" e, mais tarde, o grande sucesso da sua carreira e talvez um dos últimos dos tempos em plenitude do Parque Mayer, "Lisboa, Tejo e tudo", uma produção da Empresa Carlos Santos.

O ator também entrou em comédias, como "Os porquinhos da Índia", "A cama dos comuns", "Que medo, senhor Alfredo!" e "Três na (mesma) cama.

O seu nome era presença regular nas produções de teatro comercial, de empresários como Giuseppe Bastos e Vasco Morgado, interpretando sobretudo autores portugueses.

Sucederam-se então, nos anos de 1980/1990, novos trabalhos em televisão, sempre em comédia - ou a fazer valer o seu jeito de comédia - em séries como "Eu Show Nico" e "Nico D'Obra", de Nicolau Breyner, "Trapos e Companhia", "Os Andrades", "Polícias", "Reformado e Mal Pago" e "Médico de Família".

Um cancro nas cordas vocais, em 1998, afastou-o da profissão e de Lisboa, onde nascera, para se fixar na aldeia do Granho, em Salvaterra de Magos.

Como disse Carlos Miguel,  a importância estava na cultura: "É a alma das coisas, sem cultura não há futuro".

Maria João Abreu

A vida é tão injusta. Todos os dias, a Maria João entrava nas nossas vidas para nos fazer rir ou para nos fazer chorar. A mim fez-me dar muitas gargalhadas e, por esse motivo, apesar de toda a tristeza e revolta que sinto nesta ida tão precoce, não consigo deixar de fazer um sorriso sempre que a lembro em papéis como a criada do "Médico de Família" ou mais recentemente em "Patrões fora". Não imagino como será para os colegas regressar ao palco sem a sua presença.

A partida deu-se ontem, aos 57 anos, no Hospital Garcia de Orta, depois de um aneurisma cerebral que lhe vinha dando sinais (segundo dizem agora vários colegas) mas ao qual ninguém deu a importância devida. Faz-nos perceber como somos tão pequeninos.

Dela, nunca esquecerei a sua presença nas revistas à portuguesa, junto de outras grandes figuras que admiro, como Marina Mota, Simone de Oliveira, João Baião, Joaquim Monchique, José Raposo, Natalina José ou Carlos Areia, entre tantos outros nomes.

Aqueles que nos marcam, irão sempre cedo de mais.

Envelhecer

Faz parte da vida, é um processo natural. Envelhecer não pode ser desistir da vida, nem abandonar o corpo à sorte do que há-de vir.

Porque é que envelhecer não pode ser apenas tranquilo?

Sem medos e sem dores? O olhar é o primeiro a ir, sem cor, baço, sem vida que resta de um centelha de esperança que já não está ali.

Ainda não me preparei para que me envelheçam os meus.

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